“O Infinito no Meio”: algo fundamental escapa pelos dedos

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Prisão epifânica é um tipo de cárcere em que não sabemos que estamos presos. É só quando tentamos fugir que descobrimos que nossa vida, na verdade, é uma cela.

É a Caverna de Platão, a Matrix, a Seahaven Island de O Show de Truman, o Museu do Silêncio de Yoko Ogawa, o Fim do Mundo de Haruki Murakami.

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4 livros para quem curte “Kuzu no Honkai”

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Grande sucesso da temporada, Kuzu no Honkai tem colecionado elogios por nos apresentar uma história que não vemos todos os dias: um antirromance.

Enquanto que muitos autores nos trazem amores açucarados e previsíveis, o anime se destacou por trazer personagens imperfeitas, em relações que trazem mais dor que felicidade. Um balde de água fria em um gênero marcado pela idealização.

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“O Museu do Silêncio”: as memórias (e a literatura) são universais

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Muitos anos atrás, um primo italiano, restaurador, deu para minha mãe um vaso que encontrou em um sítio arqueológico. Ele o escavara em Cariati, uma pequenina cidade do sul da Itália de onde veio a minha família.

Estava em pedaços e parecia ser muito antigo. Grego? Romano? Etrusco? Ninguém sabia ao certo, mas não importava. Minha família sempre o tratou como um tesouro sem igual.

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“Cultura otaku” é cultura japonesa?

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Para nós, do outro lado do mundo, essa pergunta soa estranha. O Guia da Cultura Japonesa carrega uma seção inteira sobre o assunto (algo de se esperar, já que é publicado pela JBC). No bairro da Liberdade em São Paulo mangás e merchandise otaku dividem espaço com kimonos, mistura para missô e cogumelos shiitake. Mesmo os mais ávidos “militantes” anti-anime reconhecem seu carimbo nipônico: anos atrás, um deputado americano declarou que a mídia é a prova de que duas bombas não haviam sido suficientes.

O leitor pode ficar surpreso ao saber que na terra do sol nascente essa opinião tem seus contrários. Políticos como Shintaro Ishihara, ex-prefeito de Tóquio, aproveitam cada oportunidade para atacar a influência da cultura otaku na “saúde dos jovens”, a ponto de terem trocado farpas com gigantes da indústria com um projeto de lei de controle da mídia anos atrás. Ishihara não é um único: para vários japoneses, mangá e anime não são cultura japonesa “de verdade”. Para eles, não passariam de perversões ocidentais que retratam – quando não zombam – de símbolos nipônicos legítimos. O “verdadeiro Japão” não usa palavras em inglês em seu vocabulário, nem baba com garotas estilizadas de pouca roupa e heróis de topetes coloridos. Estes são costumes ocidentais – em especial, americanos – que japoneses abraçaram por vergonha, ignorância ou degeneração.

Por mais histéricos que esses críticos soem, eles não estão 100% errados. Há algo de não-japonês na cultura otaku, que abala a própria ideia de uma “cultura japonesa”. Porém, como em todas as coisas, a verdade é sempre mais complicada.

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