Entrevista: como ‘Attack on Titan’ expandiu as fronteiras do mangá

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No mês passado, dois executivos da Kodansha, Kohei Furukawa e Hiroaki Morita, vieram aos Estados Unidos para conversar sobre mangás, o futuro dos quadrinhos com as mídias digitais e o sucesso de produções japonesas em solos ocidentais.

Em especial, citaram como Attack on Titan, o hit de Hajime Isayama, foi um divisor de águas no mercado. Em uma época de baixa popularidade de mangás, a série propiciou uma renascença da demanda por quadrinhos japoneses.

Eu já falei anteriormente do imenso apelo de Attack on Titan e de como ele ultrapassa as polêmicas domésticas em torno do seu lançamento. Com sua fórmula simples, herois interessantes e fábula de luta contra a opressão, ele acerta em um acorde surpreendentemente universal.

Furukawa e Morita são da mesma opinião. A entrevista completa pode ser encontrada no Anime News Network, em inglês. Para os interessados, vão abaixo alguns highlights:

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“Cultura otaku” é cultura japonesa?

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Para nós, do outro lado do mundo, essa pergunta soa estranha. O Guia da Cultura Japonesa carrega uma seção inteira sobre o assunto (algo de se esperar, já que é publicado pela JBC). No bairro da Liberdade em São Paulo mangás e merchandise otaku dividem espaço com kimonos, mistura para missô e cogumelos shiitake. Mesmo os mais ávidos “militantes” anti-anime reconhecem seu carimbo nipônico: anos atrás, um deputado americano declarou que a mídia é a prova de que duas bombas não haviam sido suficientes.

O leitor pode ficar surpreso ao saber que na terra do sol nascente essa opinião tem seus contrários. Políticos como Shintaro Ishihara, ex-prefeito de Tóquio, aproveitam cada oportunidade para atacar a influência da cultura otaku na “saúde dos jovens”, a ponto de terem trocado farpas com gigantes da indústria com um projeto de lei de controle da mídia anos atrás. Ishihara não é um único: para vários japoneses, mangá e anime não são cultura japonesa “de verdade”. Para eles, não passariam de perversões ocidentais que retratam – quando não zombam – de símbolos nipônicos legítimos. O “verdadeiro Japão” não usa palavras em inglês em seu vocabulário, nem baba com garotas estilizadas de pouca roupa e heróis de topetes coloridos. Estes são costumes ocidentais – em especial, americanos – que japoneses abraçaram por vergonha, ignorância ou degeneração.

Por mais histéricos que esses críticos soem, eles não estão 100% errados. Há algo de não-japonês na cultura otaku, que abala a própria ideia de uma “cultura japonesa”. Porém, como em todas as coisas, a verdade é sempre mais complicada.

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Um Ano “sem” Studio Ghibli: O que Miyazaki e Companhia nos Deixaram

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O aviso foi feito em 2014: o Studio Ghibli não faria novos filmes, ao menos por um tempo. O fã de longa data, que escuta Miyazaki anunciar a aposentadoria desde 1997, deve ter ficado incrédulo. Porém, um ano depois, parece que seu produtor, Toshio Suzuki, falava sério. Quando Estava com Marnie, lançado no Japão ano passado e em Blu Ray esse ano no ocidente, foi o último coelho a sair da cartola. A companhia que nos deu Totoro e Nausicaa está sem planos imediatos para novos lançamentos.

Aos abalados, um consolo. Suzuki garante que o estúdio voltará, mas deve passar por uma reformulação. Será que as coisas voltarão a ser como antes? Ou teria a era dos filmes clássicos de Miyazaki e Takahata chegado, finalmente, ao seu fim?

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O Monstro Dentro de Cada Um de Nós

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Aquele que luta contra monstros deve ter cautela para que ele também não se transforme em um monstro.

A frase é de Nietzsche, embora tenha se popularizado (um tiquinho modificada) na voz de Idris Elba no filme Pacific Rim. No que diz respeito aos nossos medos, a afirmação vai direto ao ponto. Monstros apavoram, mas o medo é muito maior quando sabemos que eles têm uma casca de humanidade. Dos lobisomens aos serial killers, do vampirismo à loucura, poucas coisas fazem homens tremerem nas bases mais do que saberem que podem sucumbir à selvageria.

Ainda assim, há uma pequena nuance na frase que a torna ainda mais interessante. E se fosse o ato mesmo de caçar monstros que os faz surgir em primeiro lugar? E se a distância entre caçadores e criaturas for pequena – pequena demais, talvez, para que a maioria das pessoas a perceba? E se eles – tanto monstros quanto herois – não pertencerem ao mundo “normal”, mas fizerem parte de um outro: um jogo de gato e rato mortal em que inocentes estão à mercê de sua violência?

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Miho Maruo e Keiichi Hara: Nomes para Guardar na Memória

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Não é preciso ser “do meio” para reconhecer o talento no mundo do anime. Amantes de cinema de uma forma geral têm a lista dos artistas que admiram na ponta da língua. No entanto, não é todo dia que alguns dos nomes mais conceituados em atividade resolvem juntar esforços num único projeto.

Miss Hokusai parece ser uma dessas peças raras. A película já está dando as caras em festivais e estará dentro de breve disponível ao público geral fora do Japão. Trata-se de um filme sobre a filha do famoso pintor de A Grande Onda de Kanagawa e herdeira de seu talento, muito embora (como outros parentes de lendas vivas) tenha acabado obscurecida pelo sucesso do pai. Além da premissa pouco usual, o que chama atenção é o dream team que segura suas pontas. A obra é baseada no mangá de Hinako Sugiura, entusiasta da era Edo (1603-1868) que largou a profissão de mangaká para fazer consultoria histórica sobre a época. A animação está sob o comando de Yoshiki Itazu, que tem no currículo Vidas ao Vento de Miyazaki e o inacabado The Dreaming Machine de Satoshi Kon. A arte de fundo é assinada por Hiroshi Ohno, o mesmo do sensacional The Wolf Children. O roteiro e a direção, por sua vez, estão nas mãos de Miho Maruo e Keiichi Hara.

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Lágrimas e Mais Lágrimas

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Exclamações de “kawaii!!” não são as únicas emoções de que otakus se vangloriam. Para o observador de fora, pode parecer estranho que uma mídia povoada por cabelos coloridos, espadas gigantescas, robôs de combate e acrobacias sobre-humanas possa despertar sentimentos mais profundos. À exceção dos longa metragens autorais, nosso anime televisivo de cada dia nos oferece, na melhor das hipóteses, uma overdose sensorial; na pior, um passatempo enérgico.  Quando até mesmo os animadores mostram desdém pelo seu próprio meio é porque há alguma coisa errada.

Ou, talvez, seja porque estamos olhando para o lugar errado.

É notável, nesse caso, a popularidade do melodrama no anime. Não a tragédia sóbria da dita “alta” cultura, mas – o que é, de certa forma, ainda mais surpreendente – o drama pastelão, de reações exageradas e estereotipadas. A trama que se leva a sério demais, e tão bem cumpre a tarefa que parece se tornar outra coisa (um comercial de si mesma, talvez). Ao lado de artistas marciais, garotas mágicas e namoradas perfeitas, os otakus mostram um ponto fraco para lágrimas fáceis, abundantes e sinceras.

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A Guerra que Enlouquece os Homens

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Na semana passada eu falei sobre guerra e coisas que as pessoas preferem esquecer. Como tudo na vida, há sempre um contrário. Se animes como Shingeki no Kyojin simplificam o conflito aos seus ingredientes mais básicos, outros parecem batalhar desesperadamente para que nada se perca. Alguns acontecimentos são dolorosos demais para ser lembrados. Outros, ainda piores, são dolorosos demais para serem esquecidos.

Na animação japonesa, trabalhos assim aparecem de quando em quando. O recente Giovanni no Shima é um exemplo. Porém, a maior referência continua sem sombra de dúvidas O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata. O filme se tornou um marco do Studio Ghibli, do mundo do anime e da animação de uma forma geral, a ponto de ter eclipsado um pouco o diretor, cuja obra inclui o Kaguya Hime de que falei há tempos (e é aqui que o leitor começa a ver um padrão nas coisas de que escrevo).

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O Titã da Militância

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Dentro de breve chegará aos cinemas a adaptação live-action de Shingeki no Kyojin, ou Attack on Titan, um dos animes de maior sucesso dos últimos anos. Uma segunda temporada está para vir em 2016. Para os muitos fãs internacionais que se identificaram com sua trama de heroísmo e sacrifício, pode soar uma surpresa o fato de que, em sua terra natal, a obra foi recebida por certa controvérsia.

A série foi acusada de passar uma mensagem pró-militarista e de fomentar nostalgia pelas morais do regime de Hirohito. Mais precisamente, pelas fantasias de poder que instigaram a expansão do império japonês e culminaram no ataque aos aliados na Segunda Guerra Mundial.

A acusação é de coçar os olhos, e precisa de um certo contexto para quem, como nós, ocidentais, não acompanha a coisa de perto. Continuar lendo O Titã da Militância

Kaguya Hime: Em Busca do Presente

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Fãs do Studio Ghibli têm um motivo especial para assistir à cerimônia do Oscar. O anime Kaguya Hime, do diretor Isao Takahata (famoso por Túmulo dos Vagalumes), faturou uma indicação para o prêmio de melhor animação. Se levará ou não a estatueta é outra história. Eu tenho minhas dúvidas, mas milagres acontecem (e, dada a ausência de Lego Movie na categoria, minha cota de surpresas se esgotou há muito tempo). Em todo o caso, das muitas possíveis explicações para uma suposta hostilidade da academia ao anime (é japonês, é profundo, é difícil de entender, não é da Pixar), uma estará incorreta: a de que ele é “antigo” e, por isso, “distante”. De fato, Kaguya Hime é baseado em uma obra tradicional, retrata uma época tradicional e emana tradicionalidade de cada traço. A despeito de tudo, o filme não é apenas atual como, mais do que qualquer outra animação das recentes levas, é desesperadamente contemporâneo.

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