O Monstro Dentro de Cada Um de Nós

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Aquele que luta contra monstros deve ter cautela para que ele também não se transforme em um monstro.

A frase é de Nietzsche, embora tenha se popularizado (um tiquinho modificada) na voz de Idris Elba no filme Pacific Rim. No que diz respeito aos nossos medos, a afirmação vai direto ao ponto. Monstros apavoram, mas o medo é muito maior quando sabemos que eles têm uma casca de humanidade. Dos lobisomens aos serial killers, do vampirismo à loucura, poucas coisas fazem homens tremerem nas bases mais do que saberem que podem sucumbir à selvageria.

Ainda assim, há uma pequena nuance na frase que a torna ainda mais interessante. E se fosse o ato mesmo de caçar monstros que os faz surgir em primeiro lugar? E se a distância entre caçadores e criaturas for pequena – pequena demais, talvez, para que a maioria das pessoas a perceba? E se eles – tanto monstros quanto herois – não pertencerem ao mundo “normal”, mas fizerem parte de um outro: um jogo de gato e rato mortal em que inocentes estão à mercê de sua violência?

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Uma História do Cosplay: Parte 2

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Este post é a segunda parte de uma série. Para ler a primeira parte, clique aqui.

Encontrar a origem do cosplay no ocidente é mais difícil do que parece. Como disse na semana passada, a maioria dos pioneiros não têm noção de que estão criando uma moda que vingará. No Japão não foi diferente. A única certeza que podemos ter é que o hobby não surgiu magicamente com a criação do termo por Nobuyuki Takahashi. Tal como nos Estados Unidos, a prática já contava com uma tradição, espaços de atividade e um grupo de fãs excêntricos e criativos.

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Uma História do Cosplay: Parte 1

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Daqui a menos de dois meses chegará até nós a nova edição da Anime Friends. Com ela, vem também o desespero de um exército de cosplayers, amadores ou profissionais, na árdua missão de terminarem seus trajes. O que pouco sabem é que o hobby, popularizado nos últimos anos, é muito mais antigo do que a maioria das pessoas imaginam. Aqueles que criticam a arte de criar fantasias como “passatempo de criança” se surpreenderiam em saber que os primeiros “cosplayers” teriam idade para ser seus avós (ou bisavós). O hobby é mais antigo que os videogames, mais antigo que os computadores (sem os quais não haveria games) e, quiçá, mais antigo que o próprio anime.

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Miho Maruo e Keiichi Hara: Nomes para Guardar na Memória

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Não é preciso ser “do meio” para reconhecer o talento no mundo do anime. Amantes de cinema de uma forma geral têm a lista dos artistas que admiram na ponta da língua. No entanto, não é todo dia que alguns dos nomes mais conceituados em atividade resolvem juntar esforços num único projeto.

Miss Hokusai parece ser uma dessas peças raras. A película já está dando as caras em festivais e estará dentro de breve disponível ao público geral fora do Japão. Trata-se de um filme sobre a filha do famoso pintor de A Grande Onda de Kanagawa e herdeira de seu talento, muito embora (como outros parentes de lendas vivas) tenha acabado obscurecida pelo sucesso do pai. Além da premissa pouco usual, o que chama atenção é o dream team que segura suas pontas. A obra é baseada no mangá de Hinako Sugiura, entusiasta da era Edo (1603-1868) que largou a profissão de mangaká para fazer consultoria histórica sobre a época. A animação está sob o comando de Yoshiki Itazu, que tem no currículo Vidas ao Vento de Miyazaki e o inacabado The Dreaming Machine de Satoshi Kon. A arte de fundo é assinada por Hiroshi Ohno, o mesmo do sensacional The Wolf Children. O roteiro e a direção, por sua vez, estão nas mãos de Miho Maruo e Keiichi Hara.

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Extra: “Inventando as Verdades” de Mad Men

Produzir uma série histórica não é fácil. Ainda mais um drama de peso como Mad Man. Criaturas do nosso tempo que somos, precisamos ter cuidado com as escolhas mais básicas: os itens de vestuário, os objetos de cena, o papel de parede, o tipo de cadarço do sapato, as linhas de diálogo. Quem se responsabiliza por essas coisas? Uma legião de artistas e auxiliares. Felizmente para nós, alguns deles resolveram compartilhar seu processo criativo.

The Complete Mad Men Companion é um guia virtual que viaja pelos bastidores do hit de Matthew Wiener. Dos ternos de Don aos penteados da Joan, da carteira da Betty às mesas da SC&P, cada escolha é comentada pelos criadores responsáveis. A galeria mostra um nível de detalhismo de cair o queixo, e é leitura recomendada para qualquer fã de Mad Men e da atual renascença da TV americana.

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Da Escócia a Temeria

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Esse mês traz um sopro de alívio a todos que sofrem da abstinência de grandes RPGs. The Witcher 3: The Wild Hunt, sequência de uma das mais inesperadas franquias dos últimos anos, chegará às prateleiras. Quem pensava que um game da Polônia viesse um dia a fazer sucesso no grande circuito que venha pegar meu dinheiro da aposta. De minha parte, qualquer esperança que eu pudesse ter a respeito foi varrida pela tímida recepção do alemão Gothic na geração retrasada. Nota mental de que a Europa não-anglófona e não-Ubisoft, se não uma cornucópia da fartura em termos de lançamentos, tem muito talento a entregar.

Céticos ou apaixonados, fãs da série que perderam a entrevista de  Jonas Mattsson, designer da CD Projekt Red, em 2013 vão se interessar em ler seus comentários. Sua declaração de que The Wild Hunt, fiel à nova linha de RPGs pós-Skyrim, será uma sandbox talvez seja o que mais atraia a atenção dos gamers. Contudo, interessante também são as referências sobre as quais ele diz ter trabalhado: Game of Thrones, Robin Hood e o clássico épico de Mel Gibson, Coração Valente.

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O Jogo da Vida

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No mundo pós-Gabe Newell em que vivemos, a cultura geek já se comporta como o entretenimento mainstream.  Às vezes, os destaques nos chegam sem que façamos nada (quem sobreviveu à semana passada sem falar dos Vingadores que atire a primeira pedra). Outras vezes, no entanto, somos surpreendidos por fontes das mais obscuras. É o caso de Tower of God, manhwa (quadrinho coreano) de Lee Jong-hui, ou SIU.

Quem, como eu, perdeu o lançamento da série em 2010 está perdoado. A obra é um line webtoon, formato de quadrinho feito para ser visto em browser, e tem sido distribuído gratuitamente desde então. Se a inovação impressiona aos olhos cansados do leitor acostumado ao papel jornal dos mangás e à visualização horrenda das scanlations, a obra não deixa de pertencer ao nicho que recebe atenção reduzida dos principais canais de  divulgação.

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Lágrimas e Mais Lágrimas

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Exclamações de “kawaii!!” não são as únicas emoções de que otakus se vangloriam. Para o observador de fora, pode parecer estranho que uma mídia povoada por cabelos coloridos, espadas gigantescas, robôs de combate e acrobacias sobre-humanas possa despertar sentimentos mais profundos. À exceção dos longa metragens autorais, nosso anime televisivo de cada dia nos oferece, na melhor das hipóteses, uma overdose sensorial; na pior, um passatempo enérgico.  Quando até mesmo os animadores mostram desdém pelo seu próprio meio é porque há alguma coisa errada.

Ou, talvez, seja porque estamos olhando para o lugar errado.

É notável, nesse caso, a popularidade do melodrama no anime. Não a tragédia sóbria da dita “alta” cultura, mas – o que é, de certa forma, ainda mais surpreendente – o drama pastelão, de reações exageradas e estereotipadas. A trama que se leva a sério demais, e tão bem cumpre a tarefa que parece se tornar outra coisa (um comercial de si mesma, talvez). Ao lado de artistas marciais, garotas mágicas e namoradas perfeitas, os otakus mostram um ponto fraco para lágrimas fáceis, abundantes e sinceras.

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O Fim de uma Era… O Começo de Outra?

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Para o júbilo dos fãs desesperados, a premiada série Mad Men finalmente voltou para a última parte de sua última temporada. O drama de época é exemplo de tudo o que há de mais certo na geração atual da TV americana, e reflete o julgamento daqueles que consideram nossa década como a era de ouro da telinha. Mais interessante, no entanto, é o que a série faz de inesperado, para não dizer inconcebível.

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