“O Assassinato do Comendador”: até a imaginação precisa de ordem

Nenhum escritor está à prova de críticas. Mesmo assim, há aqueles que cimentaram tão bem sua voz no mercado literário que conseguem perseverar ao sabor das opiniões.

Haruki Murakami, de volta à ativa em 2017 com O Assassinato do Comendador, é um desses autores. Nem o desprezo de alguns críticos japoneses nem o desdém do comitê do Nobel foram suficientes para reduzir sua popularidade – no Japão e no estrangeiro.

O escritor Haruki Murakami

Lançado no Brasil em duas partes (a segunda das quais ainda não chegou às prateleiras), O Assassinato do Comendador é uma verdadeira enciclopédia de tudo o que faz de sua ficção única – para o bem e para o mal.

O Assassinato do Comendador

Capa da edição brasileira

O romance é narrado pelo típico homem sem mulher que Murakami transformou, história após história, em sua marca registrada: melancólico, amargando a meia-idade em uma rotina doméstica, abandonado ou menosprezado pelo sexo oposto.

O protagonista (cujo nome nunca conhecemos) é um pintor de retratos em crise com a vida. Após se separar de sua mulher, ele aceita a oferta de um amigo para ocupar a antiga casa de seu pai, Tomohiko Amada, nas montanhas de Kanagawa.

Amada é um conhecido pintor de arte japonesa, cuja vida é cercada de mais mistério que suas telas de visitantes. Ao descobrir uma obra inédita escondida em seu sótão, o protagonista engatilha um dominó de coincidências, surpresas e absurdos que o levarão aos limites da própria realidade.

Parte desses mistérios chegam até ele por meio de Menshiki, um vizinho milionário obcecado pelos seus retratos – e por uma jovem adolescente que vive em uma casa ao lado.  Não é preciso muito para saber que ele não é o que parece.

“Eu não pude deixar de sentir” o narrador nos diz “lá fundo em seu sorriso, uma solidão que vem de um certo tipo de segredo”.

Na medida em que o enredo avança, esses segredos envolverão monges budistas mumificados, um perigoso mundo subterrâneo, um sino sobrenatural e uma assombração que se apresenta como O Comendador: personagem da ópera Don Giovanni de Mozart, cujo assassinato inspirou Amada a compor sua última e misteriosa tela.

Capa sueca de “O Assassinato do Comendador”

Esses elementos talvez seriam incompatíveis se não tivessem sido escritos pelo autor de 1Q84 e Crônica do Pássaro de Cordas.

Todo escritor possui um rol de imagens favoritas. Murakami parece ter um universo inteiro, e seu novo romance soa quase um trabalho antológico, trazendo todas à linha de frente.

Temos a obsessão com subterrâneos (o poço de Pássaro de Corda, o submundo de Impiedoso País das Maravilhas), as mulheres inseminadas em sonhos (a irmã de Kafka de Kafka, a Aomame de 1Q84), as entidades extramundanas (a ovelha de Caçando Carneiros, o Povo Pequeno de 1Q84),  o fascínio por música clássica (Murakami já escreveu um livro com o mastro Seiji Ozawa), as inúmeras descrições de vida doméstica.

É difícil, porém, afastar a impressão de que já vimos essas mesmas ideias – melhor articuladas – em outros lugares. Amada, pintor em cuja casa o protagonista vem a morar, participou de um atentado contra um oficial nazista nos anos 1930. Os esqueletos em seu armário vêm à tona ao longo do romance, mas parecem uma cópia tímida da história de Tenente Mamiya, o misterioso veterano de guerra de Crônica do Pássaro de Corda.

Exemplo de seu realismo fantástico, o Comendador é o ponto alto do livro, mas não tão alto quanto Johnny Walker ou Coronel Sanders de Kafta à Beira Mar. Entre as entidades extramundanas, o motorista de um Subaru Forrester e uma versão sinistra de Menshiki repetem o papel do cobrador da NHK, pai do protagonista Tengo em 1Q84.

Isso não significa que o romance não agregue ao cânone murakamiano. Uma troca específica, entre o protagonista e uma aparição que se apresenta como uma “metáfora”, é um dos diálogos mais deliciosos que já pude encontrar em sua obra:

“- Então o que raios você é? Outro tipo de Ideia?

– Deus me livre! Eu sou uma Metáfora, nada mais.

– Uma Metáfora?

– Sim. Uma simples Metáfora. Usada para ligar duas coisas juntas. Então por favor, desfaça minhas amarras, por favor, eu imploro.

Eu estava ficando confuso.

– Se você é quem você diz que é, me dê uma metáfora agora, de cabeça.

– Eu sou a forma mais baixa e humilde de Metáfora, senhor. Eu não consigo conceber nada de qualidade.

– Uma metáfora de qualquer tipo está bem. Ela não precisa ser brilhante.

– Ele era alguém que chamava a atenção – ele disse após uma pausa momentânea – como um homem vestindo um chapéu de cone laranja em um vagão de trem.

Não era uma metáfora impressionante, de fato. Na verdade, não era sequer uma metáfora.

– Isso é uma comparação, não uma metáfora.”

 

Murakami escreve com uma prosa simples que nunca falha em nos morder quando necessário.

Nos seus melhores trabalhos, ela resulta em agulhadas memoráveis (“Quem na Terra deseja a coisa certa afinal de contas? Mas que sentido poderia existir se nada fosse certo?”), pérolas de imaginação (“Existem sonhos simbólicos – sonhos que simbolizam alguma realidade. E também existem realidades simbólicas – realidades que simbolizam um sonho”) e descrições de uma melancolia visceral (“Seu choro foi o mais triste som de orgasmo que eu já tinha escutado”).

O Assassinato do Comendador também possui seus momentos inspirados.  O portão de Menshiki, o narrador nos conta, era digno de um filme do Kurosawa, “do tipo que cairia bem com algumas flechas crivadas”. “Não que alguém se importe” diz o Comendador sobre a origem de sua forma física. “[O] Comendador não é uma marca registrada. Se eu tivesse aparecido como o Mickey Mouse ou a Pocahontas a Walt Disney Company teria o maior prazer em me processar”.

Não obstante, boa parte de suas 700 páginas são perdidas em divagações pseudo-profundas. “Se isso foi um sonho, então o mundo em que eu estou vivendo deve ele próprio ser um sonho”; “Esse era o momento que eu mais gostava. O momento quando existência e não-existência coalesciam”; “Nenhum de nós está acabado. Cada um de nós é uma obra em andamento”; “Nesse nosso mundo real, afinal de contas, nada permanece o mesmo para sempre”.

Não há nada de muito errado nessas reflexões. Mas, também, nada de muito certo, sobretudo porque são meros slogans de ideias já desenvolvidas em seus outros livros.

A indicação de seu livro para o Bad Sex Award – premiação literária que celebra a pior descrição de coito do ano – foi um exagero dos críticos. Ainda assim, Murakami deveria ter se lembrado da lição de Oshima, sua própria personagem em Kafka à Beira Mar: “Os artistas são aqueles que conseguem escapar da verborragia.”:

“Minha ejaculação foi violenta e repetida. De novo e de novo o sêmen escapava de mim, transbordando sua vagina, tornando os lençóis grudentos. Não havia nada que eu pudesse fazer para fazê-lo parar. Se eu continuasse, eu pensava, eu me secaria por completo. Yuzu dormiu profundamente durante todo o ato sem produzir um único ruido, sua respiração regular. Seu sexo, porém, havia contraído ao redor do meu e não me deixava sair. Como se tivesse ele próprio uma vontade inabalável e estivesse determinado a arrancar cada última gota do meu corpo. “

É difícil culpar o autor quando o livro – defeitos e tudo – é tão autenticamente seu.

Murakami, afinal, é o autor que diz que livros são metáforas, e que metáforas são coisas que não podemos explicar, apenas aceitar. Que seu trabalho como escritor é “registrar o que aparece”, não o analisar, pois isso é trabalho para pessoas inteligentes, e escritores não precisam ser inteligentes.

Há uma poesia única nessa insanidade criativa. E é provável que, sem ela, Murakami não seria Murakami.

Livros de Murakami em sua edição brasileira, pelo selo Alfaguara

O autor ganhou espaço na literatura mundial por sua capacidade de traduzir sonhos em palavras. Poucos escritores, antigos ou modernos, chegam perto da sensação de que as experiências que lemos em suas páginas poderiam ter vindo de nossa própria mente – e não saberíamos apontar a diferença.

Sonhos, de fato, são confusos, inacabados e pessoais. Em forma, não só em conteúdo, O Assassino do Comendador nos faz sentir que estamos em sono REM – acessando, como Murakami diz, nosso próprio subconsciente.

Mesmo assim, seus outros trabalhos conseguiram conciliar esse estilo freestyle com um sentimento de conclusão que falta a sua nova obra. Quando Hoshino e Nakata desviram a Pedra da Entrada em Kafka à Beira Mar– ou Aomame e Tengo voltam a 1984 em 1Q84 – temos algo maior que a conclusão de uma trama.

É lema conhecido na literatura que a realidade não corresponde à melhor ficção. De onde as obras decepcionantes de escritores iniciantes que sabem apenas falar de si próprios.

Talvez, no fundo, isso também valha para os sonhos. Mesmo a mais selvagem imaginação precisa de uma pitada de ordem.

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