Café com Anime: “Horus, Príncipe do Sol”

Um novo ano chega, e com ele novas ideias. O Café com Anime não fica para trás. Para começar o ano com o pé direito, preparamos uma surpresa.

Uma edição especial discutindo alguns clássicos obscuros da animação japonesa.

E coloque “obscuro” nisso. O Finisgeekis traz para você um longa tão antigo que talvez nem lhes pareça um anime: Horus, Filho do Sol.  

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Feliz ano novo a todos, e obrigado por me acompanharem nessa nova aventura!

A obra que discutiremos hoje é um marco da história dos animes. Isto porque Horus é nada menos que o filme de estreia de Isao Tahakata como diretor. E sua primeira parceira com Hayao Mizayaki. Embora mal pareça um anime para os padrões contemporâneos, foi aqui que o germe do Studio Ghibli surgiu.

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O longa conta a história de Horus, um garoto que ajuda um gigante de pedra e é predestinado por ele a se tornar o Príncipe do Sol. Sabendo que sua vila foi destruída pelo demônio Grunwald, ele parte em busca de novos aliados – e de uma maneira de derrotar seu inimigo.

Suas andanças o levam para uma vila de pescadores assolada por um peixe gigante. Horus derrota o monstro e torna-se um herói para os aldeões.  O peixe, contudo, era uma das crias de Grunwald, que logo trama outros ardis para destruir Horus e os pescadores.

Hilda, uma feiticeira sob seu jugo, chega na aldeia para causar confusão. Inicialmente se passando por uma aliada, ela faz de tudo colocar os aldeões contra Horus.  Hilda, porém, também tem uma consciência. A duras custas (e após grande ajuda de Horus) ela consegue se libertar das garras do demônio. Juntos, eles levarão a luz a Grunwald, derrotando-o de uma vez por todas.

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Apesar de ter sido feito no Japão, esse é um anime que se insere completamente na estética ocidental disseminada pela Disney. É óbvia, por exemplo, a influência de Malévola, vilã de A Bela Adormecida, na caracterização de Grunwald.

Devo dizer que esse anime me encanta por ainda outro motivo. Sou um grande fã das culturas finlandesa e sámi, povo nativo da Lapônia. Horus é ambientado em uma Fenoscania antiga que tem muito em comum as histórias desses povos.  Alguns frames parecem tirados de uma tela de Akseli Gallen-Kallela, pintor finlandês que retratou varias dessas lendas.

Enfim, a bola está com vocês. Como lhes parece Horus, Príncipe do Sol, 50 anos depois de seu lançamento?

diego gonçalvesDiego

É meio difícil de julgar esse filme porque, bom, como o Vinícius apontou, ele já tem 50 freaking anos. Parando pra pensar, eu nem tenho certeza se a palavra “anime” já era largamente usada quando ele saiu (se bem que no começo a palavra só valia para animações para a TV, então ele com certeza não seria visto como um de qualquer maneira).

Como peça histórica ele é bem interessante, e é curioso como a ideia do pingente azul ressurge ao longo da carreira do Miyazaki. É dito que foi ele quem criou a premissa para Fushigi no Umi no Nadia ainda nos anos 70 (e ai ela foi engavetada até os anos 90), e claro, temos Laputa.

Mas como entretenimento hoje… Eu diria que Horus é um filme bem básico, um ótimo filme para passar para crianças (e bom, acho que essa era a ideia desde o começo), mas não realmente muito além disso. Pra ser sincero, eu meio que perdi o interesse na história do filme após o seu primeiro terço, e acabei demorando um pouquinho mais do que o necessário para terminá-lo.

Mas eu sei que eu não sou o público alvo do filme, então não realmente o culpo por isso. Só não sei se vou ter muito o que falar nessa nossa conversa :stuck_out_tongue:

buniiito4Fábio “Mexicano”

O problema não é apenas o tempo. O traço ser antigo não atrapalha em nada, e assim que se acostuma, é até um charme. O problema mesmo é que claramente Horus não contou com recursos suficientes. Várias batalhas teriam sido muito mais interessantes se não fossem sequências de quadros estáticos. Só por isso, definitivamente, O Príncipe do Sol não é um filme para qualquer um hoje em dia.

A história, porém, é sólida, ainda que se possa fazer um bingo de tropos ao assistir o anime e encher a cartela. É uma história positiva, acima de tudo, o que é mais evidente em como o Horus se recusa a batalhar Hilda até o final. O que tinha tudo para ser uma tragédia, e que talvez nenhum diretor atual deixaria de retratar dessa forma, em Horus se torna uma peça de resistência da boa vontade, da virtude de acreditar no bem que há no coração do outro.

cat ultharGato de Ulthar

O Fábio levanta o fato de se poder fazer um “bingo de topos”, para mim isso é uma qualidade em uma obra do gênero, como eu gosto de estudar mitos e folclore, há vários símbolos clássicos no filme, como o arquétipo do herói solar, tanto que ele é o Príncipe Sol, como também o próprio fato de se tirar a espada da pedra, o que dispensa qualquer tipo de explicação.

Também a importância que um ferreiro tinha em tempos imemoriais, quando quem sabia forjar metais era tido como praticante de magia, já que essa habilidade teria sido dada pelos deuses. Tanto é que há registros de que as pessoas levavam os feridos e doentes para serem tratados pelos ferreiros.

É como se estivéssemos vendo algum conto heroico do folclore finlandês, como o Vinicius levantou, ou talvez de algum povo do leste europeu. Mesmo o filme sendo antigo ele é muito interessante como marco do cinema, bem como esse tipo de história me agrada bastante, o típico herói mítico.

E concordo com o Fábio, a animação deixou a desejar em algumas cenas de ação, principalmente por culpa dos quadros es estáticos.

buniiito4Fábio “Mexicano”

O Herói Solar que doma a Deusa Lunar. Mais antigo que a história escrita, certamente.

cat ultharGato de Ulthar

Antiquíssimo.

Mitologia pura esse filme.

Mesmo que eu não consiga contextualizá-lo em um mito específico, ele é um compêndio de símbolos comuns a diversas culturas ao redor do mundo, é um compêndio desses elementos .

E curiosamente o título do filme em inglês é “O Pequeno Príncipe Nórdico”.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Essa bagagem mitológica é interessante se considerarmos o legado que o filme conquistou. O Theron Martin do ANN enxerga Horus como um dos disseminadores do trope do herói shounen. De fato, é fácil ver no protagonista o germe de tantas personagens icônicas do gênero – o pacifismo de Kenshin Himura, a bondade quase inocente de Goku, a garra e o grit de Ashitaka de Princesa Mononoke etc).

Mas admitir que um topos desse veio de uma obra distintamente ocidental, calcada em mitos estrangeiros (por mais que sejam, em última medida, universais) é fascinante se considerarmos o lugar que os animes ocupam na cultura japonesa.

O antropólogo e mangaká Eiji Otsuka  que diz que os topoi dos animes têm grande similaridade com o teatro bunraku. Horus insinua que uma boa parte da bagagem a que estamos acostumados pode ter vindo via Ocidente, junto com as técnicas de animação e os olhos grandes. Por mais conformes que eles sejam à ficção clássica nipônica.

Falando em tropes, devo dizer que esse foi um terceiro motivo que me levaram até Horus. O TV Tropes considera a Hilda uma das primeiras mahou shoujo “dark” da história dos animes.

Vocês sabem que eu amo esse tipo de personagem. Assistindo a Horus, não pude deixar de notar a semelhança.

De fato, a relação entre Hilda e Grunwald é quase idêntica à de Odile e Rothbart, o Cisne Negro e o Bruxo Corvo de O Lago dos Cisnes.

©Lilian Knobel

Na história, Rothbart condena uma rainha a virar um cisne branco. Sua maldição pode ser quebrada apenas pelo sacrifício de um príncipe. Quando ela finalmente encontra um trouxa amor da sua vida, o bruxo envia Odile para seduzi-lo em seu lugar.

A natureza da Odile varia de montagem a montagem. Em algumas versões, ela é a própria filha do Rothbart, disfarçada por um feitiço para parecer a rainha. Em outras, é um homunculo ou simulacro. Seja como for, a própria menção a uma Hilda maligna disputando espaço com uma benigna traz à toda o dualismo Odile/Odette (como se chama o Cisne Branco).

Enfim, o que vocês acham dessa personagem?

cat ultharGato de Ulthar

Eu gostei bastante desta personagem. Geralmente em animações mais antigas não vemos muito deste dualismo em seus personagens, o herói é sempre herói, como no caso de Horus, o vilão é sempre um vilão, como o Grunwald, mas a Hilda é diferente, vemos claramente um embate de disposições em seu coração, e isso a torna uma personagem bastante interessante, mais próxima a nós, menos arquetípica e mais humana.

diego gonçalvesDiego

Eu não seria tão rápido em dizer que não vemos esse dualismo em animações mais antigas. Não conheço o bastante do período para afirmar algo assim :stuck_out_tongue: Mas especificamente sobre a Hilda, eu curti a personagem: sua introdução, desenvolvimento, conclusão…

Tudo bem “by the book“, mas ainda assim executado muito bem. Quando ela primeiro aparece eu mesmo não pensei de imediato que ela fosse ser uma vilã, ainda que a coruja deveria ter sido um aviso bem claro kkkkk

buniiito4Fábio “Mexicano”

Gostei muito da Hilda. É a minha personagem preferida. Nada contra o Horus, mas ele é tao by the book que não tem muito o que gostar ou deixar de gostar dele. Com suas traições, dúvidas, com a raiva que eu eventualmente senti dela em vários momentos, a Hilda foi a personagem mais humana desse filme.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Seu julgamento não me surpreende, Fábio. Vilões e anti-heróis, sobretudo de histórias como essa, geralmente passam essa impressão. O próprio Lago dos Cisnes que mencionei é o melhor exemplo. Pergunte a 100 fãs de ballet quem é o melhor cisne e 99 responderão Odile. Ninguém gosta da Odette :grin:

Me pergunto se isso não tem relação com o subtexto moral que essas histórias costumavam ter. O herói, na falta de palavra melhor, é o “perfeitinho”. Ele encarna aquilo que é bom, o que deve ser emulado. Mais do que isso, ele é a própria personificação do bem – a “luz” do sol contra a “escuridão” do mal.

Vilões, por outro lado, tem o direito de aloprar. Eles exercitam todos os vícios humanos, mas todos nós carregamos esses vícios, em menor ou maior medida. Orgulho, inveja, raiva, ciúme. São essas as coisas que, em boa parte, nos fazem humanos. De onde nossa facilidade em nos reconhecer neles.

Mesmo o Grunwald reflete isso em certa medida. Ele tem limites. Ele se sente encurralado. Amedrontado. Vejam só esse rosto:

Esse não é um Senhor do Mal que morre lutando com uma risada maligna. Ele é “humano” – limitado e emocional – mesmo em sua maldade.

cat ultharGato de Ulthar

E Grunwald é um vilão interessante, embora seja um típico mago do mal, símbolo bastante comum na ficção, ele não é onipotente e senhor de todo mal, ele demonstra muitas fraquezas do filme.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Agora, a despeito do filme ser um conto folclórico quase exemplar, há algumas interpretações curiosas sobre ele que acho interessante comentar.

Originalmente, Horus foi concebido como um filme sobre o povo ainu de Hokkaido. A ideia não foi bem aceita pelo estúdio, talvez pelo medo de provocar atritos entre japoneses e Ainus. (Hoje, Golden Kamuy não parece ter problema com isso, mas entendo que os anos 1960, no auge do pós-colonialismo, poderiam enxergar isso de outra forma.)

Essa é uma mudança peculiar, por motivos diferentes. Por um lado, há uma similaridade entre povos do Norte da Eurásia, sobretudo nessa pseudo-Idade do Ferro em que Horus se passa. Eu consigo ver traços de Hokkaido nessa Escandinávia fictícia e até pensei nisso enquanto assistia ao filme.

Por outro lado, foi uma decisão que relegou Horus a ser um simulacro oriental de uma história ocidental. Será que apostar num tema distintamente japonês não teria colocado o filme em outro patamar no cânone da animação? (E nem digo necessariamente um lugar melhor).

diego gonçalvesDiego

Se fosse o caso ele talvez soaria mais distinto para nós, aqui no Ocidente, mas imagino que a abordagem escolhida o faria se destacar mais em sua terra de origem, justamente por lidar com uma ambientação e temáticas mais ocidentais.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Eu totalmente pensei nos ainus enquanto assistia Horus :stuck_out_tongue: Mas pode ter sido só minha memória recente de Golden Kamuy, vai saber.

 

cat ultharGato de Ulthar

Quando eu vi o nome do filme eu pensei em Egito Antigo :stuck_out_tongue:

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

Sobre o tema … acho que eu teria gostado mais se fossem mesmo ainus? Não porque tenha ficado faltando nada, é só que, como ocidental que sou, obviamente aquela história me pareceu igual a sei lá quantas que eu já assisti ou li ou ouvi falar. Algo ainu seria novo para mim. Mas daí estamos falando de uma enorme distância no tempo e no espaço. Para a época, não sei se teria sido melhor. Bom, eu acredito que o Takahata faria algo bom de qualquer jeito.

buniiito4Gato de Ulthar

Princesa Mononoke também esbarra naquestão dos ainu né? E é do final dos anos noventa né? Mas acho que nessa época já estavam de boa as coisas.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

A segunda interpretação que encontrei é mais curiosa, e eu queria saber o que vocês pensam dela.

Há quem diga que Horus reflete disputas internas no sei da Toei quando o filme foi realizado. Especificamente, que ele é uma alegoria da rebeldia, dos jovens artistas (em especial, o próprio Takahata, então com 32 anos) contra as condições de trabalho e hierarquia fossilizada do estúdio.

A vila do anime, assim, seria uma representação do idela comunal, egalitario e “socialista” defendido por Takahata e Cia.

Confesso que foi uma surpresa ler sobre esse sub-texto. Não acho que seja algo que acrescente muito ao filme (nem que seja facilmente identificável, considerando quão arquetípica a aldeia de Horus é). Claro, por se tratar de um anime lançado em 1968 eu não duvido de nada. Esse foi um ano de efervescência política no mundo todo.

Também acho irônico que Takahata tenha iniciado sua carreira militando por melhoras nas condições de trabalho e falecido em meio a denúncias de tratamento insalubre de seus funcionários. Já dizia o ditado: morra um herói ou viva o suficiente para se tornar um vilão.  :grin:

diego gonçalvesDiego

É… não me convence não :stuck_out_tongue: Ainda que não fosse impossível, dado o contexto, a história de fato soa arquetípica demais para carregar esse tipo de mensagem. Pra mim parece superinterpretação, e até gostaria de perguntar onde foi que você viu essa, Vinicius.

buniiito4Gato de Ulthar

Essa teoria pode ser curiosa mas me parece improvável, ainda mais que é puta especulação,.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Essa interpretação vira e mexe aparece em análises do filme. Como essa , essa  ou essa.

Porém, não achei nenhum material de primeira mão confirmando sua veracidade. Pode ser que, por se tratar de um anime antigo e obscuro, ele simplesmente não exista mais. A produção de Horus é cercada de mistérios até os dias de hoje. Até mesmo a romanização oficial de seu título (Horus vs Hols) é disputada.

Pode ser também que todas essas páginas anglófonas estejam bebendo da mesma fonte. Que pode ou não ser fidedigna.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Isso para mim soa à lenda urbana. Está no mesmo nível daquela que diz que Totoro é uma alegoria para um crime brutal que aconteceu de verdade. Vou nem detalhar ou botar links, é só boato, basta pesquisar que encontra. Faz sentido? Claro que faz! A característica fundamental das lendas urbanas é fazer sentido.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Bom, não posso culpar esses comentaristas por especularem. Horus, como vocês bem disseram, é uma obra bastante clássica. Para os padrões contemporâneos, é quase um template do que um longa de anime deve ser.

buniiito4Fábio “Mexicano”

É que sem nenhuma fonte primária fica realmente parecendo só especulação. E como eu disse, faz sentido. É bonito até. O Takahata foi do sindicato, e ele e o Miyazaki se conheceram por causa do sindicato. Então sem dúvida é uma história verossímil.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Pois é, não dá para inventar em cima do que não sabemos.

Enfim, estamos hoje em 2019. Como disse no começo, mais de 50 anos depois do lançamento do Horus. Para vocês, espectadores contemporâneos, qual foi a imagem que ficou? O que vocês diriam que melhor permanece de todo o filme?

diego gonçalvesDiego

Hum, é difícil dizer. Como história ele é bem básico, mas ainda guarda um charme bem próprio. Acho que não tem uma coisa ou um elemento que eu diga que se destaca, ele como um todo ainda é gostosinho de se assistir, por simples que seja.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Vale a pena assistir nem que seja só para ter raiva e depois pena da Hilda.

cat ultharGato de Ulthar

É o tipo de história que não envelhece para falar a verdade, é a clássica e batida jornada do herói, mas que sempre funciona em qualquer época.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Pois é. Se tivesse um orçamento melhor para animação, com certeza estaria entre os grandes filmes animes que todo mundo diz que precisam ser assistidos até hoje.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Estou com o fácil. Achei que a Hilda valeu o “ingresso”, por assim dizer. Fosse um anime contemporâneo, decerto ganharíamos um spin-off só dela.

Enfim, acho que é isso aí, pessoal. Agradeço a todos vocês por essa jornada no túnel do tempo. Estão se sentindo mais iluminados? Mais a baixo do iceberg de conhecimento geral otaku? Eu com certeza estou!

Um abraço a todos então, e que venha a temporada de inverno!

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