“Sono Toki, Kanojo Wa”: uma vida cabe em três minutos?

Dizem que quando morremos a vida inteira passa diante dos nossos olhos.

Confesso que imaginar isso, para mim, sempre foi difícil. Uma vida inteira, em poucos instantes? E aqueles momentos que eu não quero revisitar? As filas de supermercado, as tardes perdidas no trânsito? De todo nosso tempo na Terra quando não é gasto com tarefas desse tipo?

Haverá um editor cósmico para selecionar meus “melhores momentos”? E se houver? Seriam esses episódios, por si só, suficientes para explicar quem eu fui?

A vida faz sentido sem seus fillers?

As respostas às vezes vêm de onde menos esperamos. É o caso de Sono Toki, Kanojo Wa (“Naquele tempo, a garota…”), pérola improvável da atual temporada de animes.

A série acompanha os romances de quatro mulheres durante momentos diferentes de suas vidas.

Com vinhetas de três minutos e diálogo mínimo, sua história é um mosaico de instantes cotidianos. Alguns, como os fogos num festival de verão (episódio 9) são clichés obrigatórios de animes românticos. Outros, como um encontro sem final feliz (episódio 3), chamam a atenção pela sua franqueza.

Isso faz do anime uma obra minimalista, mesmo para os padrões do curta metragem. Seus episódios são fotografias mais do que contos, sem uma resolução explícita ou, em alguns casos, mesmo um conflito definido.

O anime constrói alguma continuidade revisitando suas personagens ao longo dos esquetes. Em pelo menos um episódio vemos casais diferentes em uma mesma cena, sugerindo que suas histórias se passam na mesma cidade – Fukuoka, segundo a sinopse oficial.

Nada disso, porém, muda a sensação de que estamos folhando um álbum de recordações.

Esse minimalismo encontra eco na sua parte artística. Sua “animação” é quase inexistente, uma sequência de quadros estáticos que parece, às vezes, saída de uma visual novel.

Se as tomadas nunca ficam cansativas é por mérito da brilhante edição de som e da beleza da fotografia, reminiscente do trabalho de Chica Umino.

O pouco de movimento que chega até nós vem na forma de movimentos sutis. As mãos de adolescentes se tocando durante uma conversa. Os pés se entrelaçando durante uma tarde preguiçosa na cama. O olhar malicioso de um namorado focado em sua ex. O sinal mínimo, porém inconfundível do perdão.

O anime, de fato, é composto de pequenos momentos. Ingredientes fundamentais que todos que já passaram por um namoro viveram. Elementos, mesmo assim, que a ficção quase sempre esnoba.

Em Encontro de Adulta (episódio 3), uma mulher termina a date sozinha no bar. Sua tristeza é narrada não por uma pessoa, mas pelos olhos de um band-aid. Dia Normal (episódio 4) traz um casal e uma mãe com seu filho fazendo compras no mesmo mercado.

As relações, logo vemos, são semelhantes. Entendemos que aqueles namorados vivem prazeres simples, de uma maneira casual que a vida nos ensina a esquecer.

De todos os momentos a se escolher para definir uma relação seria esse o melhor? Quando contamos dos nossos namoros é a compra do mês que ocupa nossos pensamentos? Ou nossas conquistas, projetos, aventuras?

Provavelmente não. Mas há uma argamassa fundamental nesses episódios banais sem a qual não existiriam conquistas, projetos ou aventuras.

Histórias de romances estão recheadas de primeiras vezes, confissões bombásticas, beijos melecados ao pôr do sol. A ideia de tais momentos não são um fim em si – de que há, enfim, mais na vida conjunta que seu começo – parece lhes escapar. Me pergunto se o fracasso de tantos romances na vida real não vem de uma cegueira parecida.

Talvez seja preciso uma série como Sono Toki para nos lembrar da alternativa. Na vida, como na arte, é com pequenos gestos que se constrói uma alegria.

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