Anime x livro: “As Memórias de Marnie”

Anime x Livro tem como objetivo comparar romances da literatura com suas adaptações na telinha japonesa. A proposta é sair do fla-flu e esmiuçar essas séries (e livros) em detalhe. 

Nos idos de 2014, o Studio Ghibli se despediu de seus fãs com um filme um tanto diferente: As Memórias de Marnie. O longa chamou a atenção pelo seu estilo low key, pela estética um tanto ocidental e pelo seu diretor, Hiromasa Yonebayashi, menos conhecido que os decanos Miyazaki e Takahata.

Fãs do estúdio talvez não saibam que o filme foi baseado em um antigo clássico da literatura britânica. Que o próprio Miyazaki elegeu como um dos melhores romances já escritos para jovens.

Quão parecido ficou a adaptação do original? Vamos juntos descobrir.

Clique nos títulos para ir direto às seções. Ou então só continue abaixo, se estiver com tempo. AVISO (DESNECESSÁRIO): Contém SPOILERS para As Memórias de Marnie)

 


As Memórias de Marnie não é um romance tão conhecido fora do Reino Unido. Mesmo assim, foi um grande sucesso da literatura britânica, rendendo uma indicação à Medalha Carnegie.

Ele conta a história de Anna, uma garota solitária que não consegue de forma alguma se encaixar. Órfã, ela descobre certo dia que sua mãe adotiva recebe dinheiro para criá-la.

Subsídios do governo a pais de órfãos são coisa super normal. Anna, porém, não sabe disso. A seus olhos de criança, aquele cheque significa que sua “tia” (como a chama) não a ama de verdade. E que ela é, no final das contas, apenas uma despesa.

Aflita com a melancolia de Anna, sua mãe adotiva a leva à casa de um casal de amigos na praia, esperando que a mudança de ares ajude a garota a se encontrar.

Na pequena cidade portuária, Anna encontra um misterioso casarão beirando a areia que parece esconder um mistério ainda maior: uma linda garota loira que aparece em suas janelas.

Ela diz se chamar Marnie e logo se torna a melhor amiga de Anna. Mas algo não parece muito certo.

Por que Marnie se veste com roupas antigas, como se viesse do passado? Por que sua casa parece ora abandonada, ora polvilhada de aristocratas, camareiras e mordomos?

Seria Marnie uma garota de verdade? Um delírio, uma amiga imaginária… um fantasma?


Marnie não é uma história estranha ao mestres do Ghibli, e provavelmente deve sua longevidade ao estúdio japonês.

Como mencionei na introdução, o livro aparece em quarto lugar em uma lista de 50 melhores livros-infanto juvenis elaborada por Hayao Miyazaki. Mesmo assim, não foi o criador de Totoro, e sim Hiromasa Yonebayashi (Arriety, Mary to Majo no Hana) quem o levou à telona.

O longa foi o último filme do Studio Ghibli antes de seu hiato em 2014. O encerramento das atividades levou uma série de criadores (entre os quais o próprio Yonebayashi) a fundar uma empresa sucessora, o Studio Ponoc, pela qual lançariam outros filmes.

Tudo isso fez com que Marnie fosse lançado em um clima de certa melancolia, ofuscado pela sombra de Princesa Kaguya, contra o qual sua atmosfera pacata e ambientação simples custou a competir.

Se Marnie não foi um arrasa-quarteirões para os padrões ghiblianos, o mesmo não pode ser dito de seu material de origem. O anime renovou o interesse no livro original, tornando-o um sucesso mundial de público décadas depois da morte da autora.

Será que alguma coisa se perdeu na tradução? Ou teriam os ares japoneses até mesmo melhorado essa história?

Para responder, vamos por partes.


A diferença mais óbvia entre livro e filme é o lugar onde sua história se passa. Marnie, o livro, é ambientado em Norfolk, na Inglaterra, província em que a própria Robinson viveu.

Que Yonebayashi a transportaria ao Japão era inevitável. Porém, há uma peculiaridade do condado que vale a pena comentar.

Para aqueles que não conhecem muito a Inglaterra, Norfolk é aquela “bundinha” da região de East Anglia, virada para o Mar do Norte:

Como o mapa deixa claro, não é apenas um condado interiorano. É um lugar que está completamente fora das grandes rotas ligando cidades importantes como Londres, Manchester, Birmingham ou York. Se você foi parar em Norfolk, é porque quis ir para Norfolk.

Como escreveu Kazuo Ishiguro no seu belíssimo Não me Abandone Jamais: 

“Vocês vêem, porque está saltado para fora aqui no leste, nessa corcunda saindo para o mar, [Norfolk] não está no caminho de nada. Pessoas indo para o norte ou para o sul” ela mexia a varinha para cima e para baixo “elas o evitam completamente. Por essa razão, é um canto pacato da Inglaterra, bastante agradável. Mas é também um canto perdido.” (p. 60)

É nesse “canto perdido” que Anna, uma garota da cidade, se vê exilada durante sua crise de solidão.

Yonebayashi teve uma tarefa ingrata ao transpor esse cenário ao Japão. Felizmente, a Ilha do Sol Nascente possui sua cota de condados pacatos.

O local escolhido foi um vilarejo próximo a Kushino, na ilha de Hokkaido no extremo norte do Japão.

A cidade de Kushiro em Hokkaido, onde se passa o filme.

Província rural, isolada do “meião” urbano de Kanto e Kansai, é de fato o mais próximo de um “canto perdido” que o país tem a oferecer.


Marian (aka Marnie)

Ela olhava diretamente à frente conforme remava, seus olhos abertos jamais piscando, esforçando-se para absorver cada detalhe de sua nova amiga através da escuridão. Ela viu que seu cabelo liso e loiro estava preso naquela noite, pendurado sobre seus ombros em duas longas tranças que balançavam para frente e para trás cada vez que ela se debruçava. Debaixo de seu cardigã ela usava novamente um vestido longo e branco que se estendia quase até seus pés. Teria ficado estranho em qualquer outra pessoa, mas Anna o aceitava sem titubear. Parecia certo que aquela garota parecesse uma personagem de um conto de fada. (p. 77)

O trecho acima diz tudo o que há de ser dito sobre Marnie: ela é uma personagem saída de um conto de fadas.

Com cachos loiros que parecem feitos de ouro, olhos penetrantes e roupas anacrônicas, ela arrebata a atenção de Anna (e de nós, leitores) quase de imediato.

Yonebayashi não fez qualquer mudança à caracterização de Robinson. Pelo contrário, adaptou o seu próprio cenário para que Marnie se mantivesse exatamente a mesma, a despeito de ser transportada a outro país e época.

Para que preservasse seus traços caucasianos, o anime deu a ela um pai estrangeiro. Tanto ela quanto Anna (que, descobrimos, é sua neta) herdaram seus olhos azuis, coisa inusitada para japonesas que contribui para que a protagonista se sinta ainda mais deslocada.

Princesa europeia perdida no interior do Japão, Marnie ganha assim uma aura mais etérea e fantasmagórica do que contava no livro. Mais do que uma garota de outra época, ela parece uma figura de outro mundo, habitado por dignatários estrangeiros e mansões ocidentais.

Exatamente como os ricos japonesas da Era Meiji (1867-1912), que construíram casarões muito parecidos com a casa em que Marnie vive:

Casarão em estilo ocidental na cidade de Fukuoka. Fonte

Os Pegg/Oiwa

Claro, a moçoila podia vir e seria bem vinda. Ela e o Sam adorariam recebê-la, embora a gente não fosse mais tão jovem e o Sam sofresse daquele reumatismo sei lá o quê crônico desde o inverno passado. Mas vendo que ela é uma coisinha mansa que não curtia muito aprontar eles torciam para que ela ficasse feliz. “Como você se lembra” escreveu a Sra. Pegg “Somos gente simples e de casa aqui na nossa, mas as camas são confortáveis e não carecemos de nada agora com a tevê  (p.12)

O Sr. e Sra. Pegg (em japonês, os Oiwa) são os amigos da Sra. Preston, mãe adotiva de Anna, que a recebem durante sua estada em Kushino.

Casal simpático, de modos simples e jeito caloroso, eles ficam aflitos com a dificuldade de Anna em se enturmar. Ao longo do livro, suas personalidades conflitantes trarão algumas faíscas.

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, e isso sem dúvida é verdade para os Oiwa. A produção luxuosa do Studio Ghibli deu vida ao casal de forma que supera a própria prosa de Robinson. Seja dirigindo seu carro minúsculo, seja esculpindo corujas de madeira, o casal parece saído de Memórias de Ontem, um dos melhores animes sobre o Japão rural.

Se nada mais, é possível que Yonebayashi tenha gostado dos Oiwa até demais. No livro, eles são retratados de maneira cordial, porém distante; dispostos a ajudar Anna, mas incapazes (de um jeito quase grosseiro) de entender o que a aflige.

No filme, pelo contrário, eles são incrivelmente compreensíveis, mesmo quando Anna perde a compostura de forma indesculpável.

Após xingar uma menina da vizinhança (vide “Sandra”, abaixo), os Oiwa são emboscados pela mãe revoltada. Ao saber do ocorrido, eles tentam colocar panos quentes, e em momento algum se irritam com a garota. Ao descobrir que ela os estava escutando, escondida, dizem apenas que ela foi “um pouco dura demais” com suas palavras.

No livro, pelo contrário, brigar com sua vizinha deixa Anna apavorada. Ela passa capítulos a fio temendo a reação da Sra. Pegg, e quando ela chega, é tão dura quanto ela – e os leitores – estavam esperando.

O episódio é importante porque ressalta o distanciamento de Anna para com as outras pessoas. A garota foge para a companhia de Marnie porque está legitimamente apavorada com a perspectiva de uma bronca. E, de uma forma geral, de ser apenas um fardo na vida dos adultos, seja dos Pegg, seja de sua mãe adotiva.

Sem esse contraponto, a separação entre os dois mundos no anime se torna muito mais sutil. De onde os muitos palpites errados que apostavam em um romance entre Anna e Marnie.

Afinal, o que faria uma garota se obcecar tanto por outra se não o amor?

Wuntermenny/Toichi

Sim, claro que Anna podia descer até a angra. Se a maré estivesse baixa ela podia andar pelo charco até a praia e se estivesse alta ela sempre podia descer no barco de Wuntermenny. “Desde que você não se incomode em não ter companhia” ela disse. (p. 32)

O barqueiro rabugento com que Anna faz amizade é uma personagem secundária na história. Mesmo assim, ele é um dos motivos que fazem de Marnie um conto fora de série.

No livro, ele recebe seu nome peculiar por ser o décimo primeiro (!) filho de uma família muito pobre. Cansado dos frequentes partos, sua mãe nem tem mais energia para batizá-lo. “Deus me livre” ela diz “esse já é demais da conta”.

O “nome” colou, e ele passou a ser conhecido por Wuntermenny (pronúncia fonética de “one-too-many”, “um demais da conta” em inglês).

O trecho original é uma das passagens mais primorosas do livro, que mostra o cuidado de Robinson em reproduzir o sotaque caipira de Norfolk:

“Ah! I’ll tell you how it was, then, since you’re asking,” said Sam. “Wuntermenny’s ma – old Mrs West, that was – she had ten already when he was born. ‘What’re you going to call him, mam?’ they all says, and she says, tired-like, ‘Lord knows! He’m one-too-many and that’s a fact.’ So that’s how it was!” he said, laughing and spluttering into his mug of tea. “And Wuntermenny West he’s been ever since.” (pp. 32-33)

Caçula de uma família paupérrima, Wuntermenny sofria bullying frequente das crianças da aldeia. Coisa que não escapou a Marnie, que escrevia sobre o garoto em seu diário.

Nada disso aparece no filme, mas Yonebayashi conseguiu colocar a porção certa de referências na forma de Easter Eggs.

Seu Wuntermenny se chama Toichi (十一), literalmente “onze”, uma referência a seus dez irmãos mais velhos. Para a surpresa de Anna, que o julgava mudo, ele também tem recordações de Marnie, que compartilha ao final do anime. Sua primeira – e única – fala no filme.

Para aqueles que leram o livro, a cena tem um quê de poesia. A Marnie do romance observava Wuntermenny com pena, aflita por não poder ajudá-lo. O Toichi de Yonebayashi a responde, confessando que ele, também, sofria com a separação.

Sandra/Nobuko

Sandra era loira e maciça. Seu vestido era curto demais, e seus joelhos, gordos demais, e ela não tinha nada a dizer. Anna passou uma tarde insuportável jogando cartas com ela na mesa da cozinha enquanto a Sra. Pegg e a mãe de Sandra se sentavam e conversavam na sala. Sandra e Anna conheciam versões diferentes de todos os jogos, Sandra trapaceava, e elas não tinham nada a dizer. (p.40)

Desesperados com a apatia de Anna, os Pegg decidem lhe dar uma amiguinha. A escolhida é Sandra (em japonês Nobuko), filha de uma vizinha.

Sandra é uma garota que não tem, a princípio, nada de errado. Mesmo assim, Anna não consegue sentir afeto por ela. Tudo na menina lhe inspira antipatia, de seu corpo roliço ao seu jeito espevitado.

É um (de tantos) problemas que apenas crianças entendem e que contribuem para piorar cada vez mais a solidão da protagonista.

No anime, Sandra é retratada com uma fidelidade que chega a ser cruel. Yonebayashi a imagina como uma espécie de “dona da rua”, metendo-se na vida das outras crianças e liderando-as em trabalho voluntário.

A “gota d’água” acontece durante um festival de verão, cerimônia tipicamente japonesa que obviamente não está no livro original. Pressionada por Nobuko a se entrosar, Anna estoura e a xinga. É o estopim de um mal-estar que só será resolvido no final do filme.

O episódio é um exemplo curioso de adaptação. Seu diálogo foi puxado quase que diretamente do livro, mas ele ganhou uma conotação toda diferente.

Anna diz que Sandra parece uma “porca gorda”. Ultrajada, a garota responde que Anna parece “exatamente o que ela é”. Tanto no original como na adaptação a frase mexe com a protagonista, mas não pelos mesmos motivos.

No livro, ela alimenta as inseguranças de Anna de que ela seria uma garota completamente normal, sem graça. Uma menina, nas suas próprias palavras, com um “rosto de madeira”.

No anime, pelo contrário, Anna se aflige porque tem medo de não ser normal. Em vez de mostrá-la direto na plataforma de trem, Yonebayashi abre seu filme com uma tomada da garota em um trabalho da escola, sentindo-se excluída pelos demais alunos.

A Anna de Robinson sofre porque desaparece na multidão. A Anna de Yonebayashi, porque é incapaz de fazê-lo.

É uma diferença sutil, mas que revela bem as diferentes pressões sociais que acometem os jovens na Inglaterra dos anos 1960 e no Japão dos dias de hoje.

Scilla/Sayaka

“A Priscilla viu você primeiro” disse a garota com as tranças. “Ela é aquela ali”. Ela apontou para uma menina de cabelos castanhos que estava olhando para a frente, em silêncio, com os olhos arregalados. (p. 184)

Scilla (apelido de Priscilla) é a garota que faz Anna entender que Marnie não é apenas uma obra da sua imaginação.

Depois de um tempo sem ver sua amiga, Anna se surpreende ao encontrar a casa do pântano em reformas. Uma nova família – bem mais moderna e “comum” – passa a habitar as janelas onde antes via Marnie e suas governantas.

Anna começa a pensar que estivera delirando, até que uma das crianças a chama de “Marnie”. É a deixa para que entenda que mais alguém além dela fez contato com a menina de cabelos loiros.

Batizada de Sayaka no anime de Yonebayashi, Scilla se manteve relativamente fiel à sua origem. Se no livro de Robinson ela era londrina, o filme a transformou em uma nativa de Tóquio, preservando a pompa de uma garota da cidade grande.

Infelizmente, as pouco menos de 2h do anime não foram suficientes para reproduzir todos os detalhes do romance. E Scilla, personagem secundária, acabou vítima da sala de edição.

Embora o conteúdo da sua participação não tenha mudado, a forma como é contada sofreu algumas das mudanças mais expressivas.

No filme, Anna conhece Sayaka quando esta grita o nome de “Marnie” da janela. No livro, o encontro é a conclusão de uma perseguição de dias, em que ambas as garotas pensam que estão atrás de um fantasma.

Quando a revelação de fato aparece, é de uma forma tão doce que nos faz sentir pena de não ter sido adaptada às telas:

A maré já havia virado quando ela alcançou a praia. O céu estava encoberto e parecia cinza e solitário, muito diferente do local ensolarado onde eles tinham jogado críquete naquela tarde. Tinha sido estúpido fazer todo aquele caminho até ali só para ver alguma coisa escrita na areia por uma garotinha, ela pensou. Mas ela desejara vir. Ela gostava de Scilla e estava feliz em saber que ela desejava compartilhar um segredo com ela, mesmo se fosse um segredo infantil.

Ela andou até a beira da água e o viu. Conchas e tiras de algas tinham sido usadas para fazer o padrão detalhado de cada letra, e o nome MARNIE estava escrito na areia. (p. 201)

 

A vendedora de flores

A amizade entre Marnie e Anna começa de forma tímida. Ciente das suas visitas, a habitante do casarão passa a deixar um barco para que Anna possa visitá-la. Sua casa, afinal, fica de frente a um pântano, inacessível a pé na maré alta.

É apenas ao tomar os remos e surpreender a amiga durante uma festa que sua estrepolia de verão se transforma em uma aventura para nunca mais esquecer. Em vez da amiga, Anna encontra uma festa de arromba povoada por ricaços e mordomos saídos de Downtown Abbey:

“Homens e mulheres em uniformes negros e vestidos brilhantes moviam-se de um lado para o outro. Anna viu o cintilar de jóias, o lustro de correntes de ouro, a luz reluzindo em taças de vinho, vasos de rosas vermelhas e brancas e um fundo de cortinas carmesins. O corredor foi subitamente preenchido pelo som de vozes e gargalhadas e música. (p. 99)

Anna tenta fugir, mas Marnie lhe dá uma ideia melhor. Emprestando-lhe um xale e um cesto de flores, ela disfarça a amiga de “cigana” e pede que se intrometa no baile fingindo ser uma mendiga.

O plano, surpreendentemente, dá certo. Anna se torna uma sensação, bebe vinho pela primeira vez e dança bêbada nos braços de Marnie sob a luz do luar.

A cena é tão perfeita ao espírito e à letra do livro de Robinson que mal deixa o que comentar. Os animadores chegaram até a reproduzir a mesmíssima flor que Anna colhe no livro: a lavanda do mar, gênero nativo de Norfolk.

A realidade começa a se dissolver

A festa leva Anna a pensar que seus dias com Marnie são bons demais para serem verdade. Em tempo, ela descobre que de fato são.

Depois daquela noite, Marnie convida Anna para participar de um jogo. Cada uma responderá a três perguntas sobre sua vida.

Tudo parece normal até que Marnie lhe pergunta como é morar na casa dos Pegg:

Anna abriu sua boca para responder e descobriu, para sua surpresa, que ela não conseguia se lembrar. Talvez fosse porque ela estivesse pensando na resposta de Marnie e se perguntando se era Pluto quem ela às vezes escutava latindo de noite. Como era estar na casa dos Pegg? Nem um mísero detalhe ela conseguia lembrar. Tudo havia saído de sua cabeça tão completamente como se alguém tivesse apagado uma lousa com uma esponja. Marnie, que até então só parecia meio real, tinha agora se tornado mais real que os Pegg. (p. 81)

Anna sente como se estivesse habitando duas realidades diferentes que não se misturam. Quando está com Marnie, o mundo “normal” parece desaparecer. Quando está na cidade na companhia dos outros, a amiga desaparece, e seu casarão volta a ser uma ruína.

A dualidade começa a afetar sua própria mente. Com o tempo, ela se vê repetindo a Marnie coisas que a amiga disse a ela – e escutando, em troca, frases que um dia saíram de sua boca:

“Isso é o que eu disse a você – da última vez em que nós estávamos aqui.”

“Foi mesmo?”

“Sim, você não lembra? Oh, pobre Marnie! Eu amo você. Eu amo você mais do que qualquer garota que eu já conheci”. Ela estendeu a mão para tocar os cabelos de Marnie, então parou a meio caminho. “E foi isso que você disse para mim” ela disse devagar, com um olhar surpreso em seu rosto. “Que engraçado. Até parece que estamos trocando de lugar.” (p. 145)

Yonebayashi não se contentou em reproduzir a cena nos seus mínimos detalhes.  Ele usou toda a bagagem visual do Studio Ghibli para contrastar (e misturar) a realidade com o mundo dos sonhos.  Repetindo uma técnica usada por Miyazaki em Vidas ao Vento, o diretor acrescentou uma cena deliberadamente fantástica à sua história realista.

Em dado momento, próximo ao fim do longa, Anna se vê perdida em um dilúvio, que envolve toda a praia até deixar apenas um pequeno morro.

Ao subir à segurança, uma onda de cor varre a paisagem, transformando o casarão em ruínas na mansão iluminada de seus sonhos.

A cena não aparece no livro – pelo menos, não desse jeito. Apontar isso, contudo,  é perder o mais importante de vista. Sem as longas descrições e o discurso indireto do romance, Yonabayashi precisou de outros recursos para ilustrar a catarse de Anna. A solução que arranjou conseguiu ser mais emocionante que seu material de origem.

O diário de Marnie

A confusão de Anna começa a ser elucidada quando Scilla (Sayaka) entra na história.

A revelação vem de um diário que a colega encontra no antigo quarto da garota, narrando em detalhes as aventuras que ela e Anna viveram juntas. O texto não deixa dúvidas de que Marnie foi uma garota de verdade, não apenas obra da sua imaginação.

Só há um pequeno problema: o diário tem mais de cinquenta anos. Como ela pode se lembrar de coisas que aconteceram há tanto tempo?

No filme, o pequeno caderno tem uma participação mais expressiva do que no romance original. Encontrado com folhas arrancadas, Sayaka eventualmente o complementa com outras páginas achadas pelo casarão. O resultado são duas cenas de revelação, completando o quebra-cabeças ao longo do terço final do longa.

No livro, pelo contrário, o diário dá apenas as pistas iniciais às garotas. O verdadeiro mistério só seria complementado depois (vide “A História de Gillie” abaixo) em uma escolha narrativa que tirou muito do protagonismo de Anna e Scilla.

O fundamental, no entanto, se manteve o mesmo. O diário lhes conta que Marnie sofria de um terrível medo. Disposta a ajudar a amiga (e, no processo ,entendê-la), Anna decide enfrentá-lo.

O moinho

Na cidadezinha costeira havia um antigo moinho, que rumores diziam ser assombrado. Marnie morria de medo do edifício – por motivos um tanto menos óbvios.

Apesar de parecer viver uma vida de princesa, Marnie era maltratada pelas governantas. Quanto seus pais saíam para viajar (o que acontecia com bastante frequência), as criadas da mansão aproveitavam para maltratá-la.

As punições incluíam trancá-la no quarto, machucá-la de propósito (penteando seus cabelos com pentes duros) e algo ainda pior: arrastá-la até o moinho, ameaçando trancá-la dentro da torre apodrecida.

Certo dia a tortura foi longe demais, e uma tempestade inesperada acabou trancando a pobre Marnie no moinho. A garota só foi salva por seu primo Edward (no filme, Kazuhiko) que depois tornar-se-ia seu marido.

Com a intenção de fazê-la confrontar seu medo, Anna leva Marnie de volta ao moinho para mostrar como não a nada a temer. As duas são surpreendidas por outra tempestade, que termina deixando Anna apavorada, ensopada e delirante de febre.

Moinho de Burham Overy Sthaithe, que inspirou o local do livro.

O moinho (que existe de verdade) também ganhou espaço na adaptação. Entretanto, o sentido do episódio variou um pouco de uma mídia para outra.

Primeiro por conta da postura da própria Marnie. Se no livro ela é retratada como uma vítima de um staff tirano, no filme ela é uma garota simplesmente infernal.

No seu pior momento, chega a prender sua governanta debaixo de um cobertor e a tranca dentro do quarto para que não atrapalhe sua travessura com Anna.

Somando a isso a diferença de classe entre Marnie e a governanta, não é de se espantar que as criadas nutrissem rancor. Embora nada justifique as crueldades que infligiam à menina, é possível ver como, ao seus olhos, ela teve o que merecia.

A diferença mais importante, porém, diz respeito à própria Anna. No livro, já febril e delirante, a garota escuta Marnie sendo salva por Edward. Ao vê-los ir embora sem resgatá-la, ela fica desolada. Depois de tudo o que tinha feito por Marnie como ela ousava abandoná-la?

A crise em sua amizade aparece nas telas, mas nem de longe com a intensidade com que foi trabalhada no romance. Na história de Robinson é justamente fazer as pazes com aquela traição que move Anna a desvendar o mistério até o fim.

De certa forma, toda a sua amizade é apresentada como uma rivalidade não declarada entre ela e Edward. Considerando que o rapaz é na verdade seu avô e que Marnie a criou como mãe (vide abaixo), a sub-trama tem um sentido simbólico mais profundo.

Anna, afinal de contas, foi abandonada diversas vezes durante sua vida: pela sua mãe que morreu, pela sua avó; que faleceu logo depois; por Sra. Preston, sua mãe adotiva, que cuida dela (ao seu ver) apenas por dinheiro.

Apavorada pelo espectro do abandono materno, ela o projeta sobre a garota misteriosa.

Nada é por acaso. Como Anna logo descobre, Marnie é muito mais que uma “amiga”.

A história de Gillie

No final, a verdade chega de onde Anna menos espera. Gillie, uma artista da cidade, visita a família de Scilla pouco depois de se mudarem. Ao escutar a história das garotas, ela revela o twist que fez amantes de yuri do mundo todo espumarem de desapontamento.

Marnie, no final das contas, não é uma paixonice imaginária de Anna. É uma amiga de infância de Gillie, que viveu naquela mesma casa cinquenta anos atrás.

Mais: ela é a avo da própria Anna, que a criou quando bebê.  Se Anna tem memórias tão vívidas dela – mesmo de episódios que não estão em seu diário – é porque Marnie usava essas histórias para embalá-la no berço.

As memórias foram embora, mas alguns fiapos permaneceram. Como uma foto antiga da casa do pântano, assinada por Marnie, que Anna segurava em sua mão no dia em que foi adotada.

No livro, quem une os pontos é sua mãe adotiva, Sra. Preston, que viaja para encontrá-la e bate um papo com a mãe de Scilla. A decisão resulta em uma série de capítulos expositivos, em um encerramento que já foi criticado por ser óbvio demais.

Gillie (em japonês, Hisako) também aparece no filme do Studio Ghibli. Feliz – e surpreendentemente – sua participação é muito mais sutil do que no romance.

No longa, ela é introduzida desde cedo como uma artista local, uma arma de Chechov que disparará em uma das cenas finais, depois de ter reconhecido Marnie a partir do desenhos que Anna esboça.

Infelizmente, é aqui que a “modernização” da história feita por Yonebayashi tem suas consequências mais drásticas.

No filme, os pais de Marnie são bon vivants que esquecem Marnie nas mãos da governanta enquanto curtem festas dignas do Grande Gatsby.

No livro, eles também estão ausentes, mas devido a uma obrigação de outra natureza: A Guerra para Acabar com Todas as Guerras.

Navio afundando durante a Batalha da Jutlândia, 1916

Marnie viveu cinquenta anos antes de Anna. Como a história se passa nos anos 1960, isso significa que ela viveu durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918.

Seu próprio pai morreu em um navio afundado, deixando a mãe, sozinha, para administrar casa, negócios e família. Não é à toa que Marnie terminou largada nas mãos de suas governantas.

O próprio fato de Marnie ter uma governanta – três, na falta de uma! – já diz muito sobre ela. A avó de Anna não era uma garota qualquer. Era uma aristocrata britânica, vivendo em uma época em que divisões de classe eram mais intransponíveis que as trincheiras do Somme.

Marnie não era trancada em seu quarto porque era bagunceira. A mansão do pântano era uma gaiola dourada feita para separá-la de outro perigo: as crianças da “plebe” – como Wuntermenny – com quem era proibida de se relacionar.

Nascida ela própria em 1910, Joan Robinson conhecia muito bem esse mundo. E a sinceridade com que o explica às crianças em seu livro é tão inocente que chega a ser cruel:

“Ela estava sempre muito animada – uma companheira maravilhosa – e sempre parecia alegre em brincar comigo. Aquilo era uma surpresa para mim, porque eu não era uma criança muito excitante, isso eu posso lhes dizer! Eu era careta e sem-graça. Mas eu não acho que ela tinha muitos outros amigos.

“Por que não?” perguntou Scilla

“Era diferente naquela época.” Gillie explicou. “Crianças não faziam amizade umas com as outras casualmente, como elas fazem hoje” ela disse “Nós sempre tínhamos de pedir às nossas mães primeiro” (p. 253)

As tragédias não param por aí. No anime, Marnie manda sua própria filha, mãe de Anna, a um colégio interno depois da morte de seu marido. A Marnie do livro é forçada a coisa parecida, mas por motivos muito mais terríveis:

Eles caíram em silêncio, desapontados e um pouco tristes. Então Jane perguntou:  “O que aconteceu com o bebê de Marnie?”

Aquela tinha sido uma história triste, disse Gillie. Ela tinha apenas cinco ou seis anos quando a Segunda Guerra Mundial chegou e ela foi mandada para os Estados Unidos para se proteger dos bombardeios. Quando ela voltou já tinha quase treze anos e parecia outra criança, sua mãe disse – tão crescida, tão cheia de vontade e independente. E ela sempre pareceu ter rancor da mãe por tê-la mandado para longe, muito embora tenha sido para sua própria segurança (p. 263)

Londres em ruínas após os bombardeios nazistas

Ao trazer sua história para o presente, Yonebayashi jogou toda essa bagagem pelo ralo. Se isso deixou sua história mais acessível aos jovens contemporâneos, também mudou radicalmente seu sentido.

Marnie, o livro, não é apenas um coming of age. É um romance geracional sobre duas garotas de épocas diferentes confinadas por prisões invisíveis: a gaiola dourada da aristocracia pré-guerra e a solidão de um presente que força todos a serem felizes.

É um retrato de uma geração de britânicos marcados pelo turbilhão da guerra – e pelas transformações sociais drásticas, libertadoras, mas também violentas trazidas pelo conflito.

Por que Yonebayashi não decidiu unir o útil ao agradável, como fez Miyazaki em Vidas ao Vento ou o não-Ghibli Sunao Katabuchi em Nesse Canto do Mundo – é difícil de entender.
O Japão afinal de contas, não é um estranho ao trauma da guerra. A morte do pai de Marnie na Batalha da Jutlandia faria o mesmo sentido no Estreito de Tsushima. E o espectro  da Blitz de Londres não é mais poderoso que o da bomba de Hiroshima.
Seja como for, não tenho como afastar a impressão de que isso fez de Marnie uma entrada menor do cânone ghibliesco, sem o poder e relevância de Princesa Kaguya ou  Túmulo dos Vagalumes.


Marnie, de Yonebayashi, é fidelíssimo ao romance original de uma forma que raramente se vê no cinema. Nenhum detalhe se perdeu na adaptação, nem mesmo seus personagens secundários e peculiaridades do cenário.

Se o filme não supera o livro, no entanto,  é porque falha em capturar o que estava além das palavras. Sem o DNA britânico que Robinson deu à sua história – do passado da Guerra ao sotaque de suas personagens –  o longa perde aquilo que fazia dela única.

A escritora Linn Ulmann certa vez disse que histórias precisam de um “senso de um lugar”. Ao arrancar Marnie de sua Norfolk do pós-Guerra, o filme do Studio Ghibli se tornou inofensivo, até um tanto genérico: mais um (de tantos) contos de angústias adolescentes.

Nada de errado com isso. Mas, até aí, também nada de novo sobre o sol.

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