Café com Anime: “Happy Sugar Life” episódio 8

Bem vindo ao Café com Anime, sua dose semanal de bom papo e animação japonesa!

Nessa temporada, o Finisgeekis, Anime21, Dissidência Pop e É Só um Desenho discutem Happy Sugar Life.

Animes de TV não costumam ser elogiados por sua cinematografia. De tempos em tempos, porém, surge uma série que nos faz ficar de queixo caído. Com esse episódio, parece que Happy Sugar Life está entrando para o clube.

Duvida? Então confira abaixo:

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Bem vindos a mais uma sessão do Café com Anime!

E não é que tivemos o episódio mais contrastante até agora? Duas pontas importantíssimas da trama foram puxadas de uma única vez. E a execução de cada uma não poderia ter sido mais diferente!

Confesso que tenho sentimentos diferentes sobre cada uma das duas metades. Mas antes de as discurtirmos em particular, vamos discutir o episódio como um todo.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Eu acho que a importância maior desse episódio foi ter estabelecido que a Satou não é uma psicopata.

Bom, ok, hoje ela é, ela arranca olhos de valentões nas ruas, mas seu ato de violência original foi plenamente justificado. Legítima defesa. Se tivesse alguém que testemunhasse em seu favor, poderiam chamar a polícia na cena do crime que ela seria inocentada.

Naquelas circunstâncias isso fica duvidoso, e ela já não batia bem da cabeça, matar alguém deve ter clicado algo na cabeça dela e aí a desgraça começou.

Quero dizer, isso tudo ainda pode mudar caso descubramos que a Satou também está na luz da violência que colheu a mãe da Shio. Seria outra reviravolta. Vamos ver.

diego gonçalvesDiego

Que a Satou tenha agido em legitima defesa é algo que eu ainda não digeri já muito bem. Parece uma tentativa do anime de empurrar pra gente que “ah, mas veja bem, ela não é tão ruim assim”. Sei lá, não me pareceu cair lá muito bem.

Fora que novamente vemos como naquele mundo só tem psicopata: até o seu vizinho de alguns andares acima pode na verdade ser um obsessivo capaz de assassinar criancinhas. Não surpreende nem choca mais.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Gato, você é o advogado entre nós. Acha que aquilo constitui legítima defesa? Pelo que eu entendi, quem estava em perigo era a Shio, não a Satou, não foi? Não é um requisito que a própria pessoa esteja em risco?

 

cat ultharGato de Ulthar

Constitui, é o que chamamos de legítima defesa de terceiro.

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

Não sei como é no Japão, mas no Brasil acredito que exista sim o conceito de legítima defesa de terceiros. Mas no Brasil a legítima defesa deve ser “razoável”. Talvez a Satou não escapasse.

 

cat ultharGato de Ulthar

Não conheço a lei japonesa, mas estes são princípios básicos do direito penal, com pouca variação entre a maioria dos países.

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

E claro, tem o vilipêndio e a ocultação de cadáver depois :stuck_out_tongue:

 

cat ultharGato de Ulthar

Acho que a Satou poderia escapar, o pintor estava estrangulando a menina, a Satou simplesmente bateu nele com o cavalete, mais que uma vez, sim, mas ela é uma garota, um homem é geralmente mais forte, ela precisava se certificar que ele não revidaria.

Quanto a ocultação de cadáver, foi motivada não pro premeditação, mas por medo.

Um bom advogado no Brasil conseguiria fazer responder apenas por ocultação de cadáver.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Ela não tem nem boa família, que dirá bom advogado. E acho que esse é todo o ponto do anime.

cat ultharGato de Ulthar

Vilipêndio não se aplicaria, o interesse era a ocultação, não realizar qualquer outro tipo de ato com o cadáver.

Digo no Brasil, não sei se há defensores públicos no Japão, mas se eles forem que nem no Brasil, pobre da Satou.

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

É aquela coisa de não ser processado duas vezes pela mesma coisa?

 

cat ultharGato de Ulthar

É que um crime sobrepôs o outro, o cadáver pode até ter sido vilipendiado, mas o interesse e o ato de ocultação foi o mais grave.

 

diego gonçalvesDiego

O Japão tem uma porcentagem de condenação de 99%, não? Acho que se a Satou pisar na delegacia ela não sai de lá, pouco importa o quão bom seja o advogado.

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

Mas ela é uma colegial fofa :joy:

Segundo animes, ela deveria ser inocentada de tudo porque naturalmente pura.

O Japão tem um corredor da morte tenebroso.

cat ultharGato de Ulthar

Tem a questão também do juri popular. Somente em 2009 o Japão adotou julgamentos com juri popular. É algo super recente na história do Japão.

diego gonçalvesDiego

Segundo esse anime, o juri seria composto por estupradores pedófilos devoradores de criancinhas que iam rir com risadas diabólicas enquanto mandam ela pra dentro de um vulcão ativo.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Eu fico me perguntando se essa relação… peculiar com a justiça tem a ver com o papel… também peculiar da lei e do Estado nesse anime.

Estou aqui tentando pensar em outros animes que falam sobre crime. E, em paralelo, sobre obras que falam sobre investigação policial e julgamentos.

diego gonçalvesDiego

Detective Conan?:smile:

 

buniiito4Fábio “Mexicano”

Game of Laplace?

 

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Eu não assisti a nenhum dos dois, então vocês me digam se é pertinente ou não. O que me veio à mente especificamente é que não me lembro de procedurais de polícia ou justiça japoneses (algo no estilo Law & Order).

É o tipo de coisa que, para o bem ou para o mal, romantiza as engrenagens da justiça. Mas também familiariza as pessoas com seu funcionamento. Ou, pelo menos, cria uma “imaginação popular” onde esses processos existem.

Happy Sugar Life, pelo menos, não é só um anime em que todo mundo é maligno ou traumatizado. Ele mostra um universo em que essas instituições simplesmente não fazem parte da experiência das pessoas.

O que ok, casa com a proposta de mostrar uma versão absurda de mundo pelos olhos de vítimas de trauma. Mas eu fico me perguntando se não há um padrão aí em algum lugar.

diego gonçalvesDiego

Acho que não lembro de nada no nível de um Law & Order. Mesmo os dois que mencionamos são mais voltados para a investigação, não para o que acontece depois que o culpado é preso.

cat ultharGato de Ulthar

No Japão, procurar a justiça para resolver as pendências pessoais é um tanto humilhante, algo até constrangedor, por isso não há tantos advogados assim no arquipélago nipônico, totalmente ao contrário do que ocorre no Brasil, que é um país extremamente litigante, todo mundo procura o judiciário para absolutamente qualquer pendência.

Esse aspecto japonês mostra como os japoneses são individualistas, não querendo se meter nas vidas dos outros e nem querendo que os outros se metam na sua vida, mesmo que for para ajudar.

A perspectiva mais realista sobre o poder judiciário japonês eu tive por intermédio da leitura da tetralogia Mar da Fertilidade, do celebrado escritor japonês Yukio Mishima, nesta série de livros o protagonistas iniciou como um estudante de direito, depois virou um juiz e por fim se tornou um advogado.

É curioso que no Japão até na instância inicial haja três juízes, e sim, há uma predisposição a condenar em processos criminais. No que tange as leis, desde o início do século XX, as leis japonesas beberam muito das fontes alemãs italianas, como a maior parte dos países democráticos, inclusive o Brasil.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Acho que era justamente aí que eu queria chegar. Acho que já comentamos aqui desse individualismo em Happy Sugar Life, e como tudo podia ser diferente se alguém abrisse os olhos.

Falando em olhos, está aí uma coisa que não dá para deixar passar nesse episódio. Essa primeira metade, sobre o passado da Satou e seu “crime”, foi narrada de uma forma bastante peculiar. Nós acompanhamos a cena inteira pelos olhos do artista que ela assassinou. Ao mesmo tempo, não o ouvimos falar um único instante.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Mas sabemos tudo o que ele disse:smiley:

Episódio genial.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Foi fantástico! Não é de hoje que eu digo que essa série é linda, mas essa semana ela se superou. Eis uma história que podia ter sido contada de qualquer jeito, que não tem nada de especial, mas que um flair artístico elevou acima do óbvio.

Bom, o Fábio eu já vi que está na minha página. E vocês, Diego e Gato, concordam? Ou acham que a forma passou por cima do conteúdo?

diego gonçalvesDiego

Eu não sei bem o que pensar do recurso em si de colocar o espectador literalmente dentro da vítima. O anime quer que nos identifiquemos com ele? Por quê? Apesar disso, a forma como conduziram os diálogos foi mesmo excelente.

O fluir da conversa foi bastante natural, o que é bem difícil de fazer em cenas desse tipo, que frequentemente saem bastante artificiais com aquele que pode falar repetindo tudo o que o outro disse só para informar ao espectador o que foi falado. Nesse sentido, palmas para o anime.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Acho que não é para nos identificarmos com ele, porque nem sabemos quem ele é. É só para vermos do ponto de vista dele, o que … ok, é um recurso utilizado normalmente para identificação com personagem, mas acho que não foi o caso dessa vez. Não posso me identificar com uma ideia de uma vítima sem rosto.

Acho que serviu para vermos como a Satou era antes de conhecer a Shio. Isso é importante. E adicionalmente contou um flashback que, por si só, como o Vinicius disse, não é nada demais (principalmente em Happy Sugar Life), de um jeito muito mais interessante.

cat ultharGato de Ulthar

É tudo uma questão estilística, contar da maneira que o anime fez com a história do pintor foi um recurso visual interessantíssimo. O anime já mostrou que usa e abusa de recursos narrativos diferentes do habitual.

Isso é bom? É ótimo!

Sempre é bom ver esse tipo de recurso utilizado em um anime. Claro que muitas vezes isso mascara falta de conteúdo, mas não foi o caso. Foi realmente interessante ver que o pintor realmente só achava a Satou linda quando estava incompleta e triste, é algo com uma grande dose de poesia.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Eu concordo com o Fábio. Não acho que o episódio quis que nos identificássemos com o sujeito. Nós saímos dele sabendo quase tão pouco quanto sabíamos antes.

Aliás, é uma coisa interessante de um ponto de vista simbólico. Por um lado, nós temos o olhar dele sobre a Satou. Tudo o que acontece, tudo o que deixa de acontecer vêm até nós pelo seu ponto de vista. Mas a “versão” daquilo que se passa é dela. Ele nunca ganha voz para expressar o que está sentindo. Mesmo quando “lemos” seus pensamentos, eles são apenas isso: pensamentos na tela.

Será que não seria tudo (ou parte) imaginação da própria Satou? Será que não há nada faltando por aí? Uma peça que explique como o sujeito-artista virou o sujeito-vou-matar-essa-criança de ciúmes?

buniiito4Fábio “Mexicano”

Bom, é fato que só temos o tal “ponto de vista da vítima” quando a Satou estava presente, então não é assim tão independente dela. Pode até ser só o olhar dele, mas é uma seleção bem particular de “olhares” dele. Isso, em si só, pode modificar o significado da história.

Acho que ele apenas não é importante o suficiente para ter um rosto, então ele não tem, mas ao mesmo tempo ele poderia “não ter um rosto” de várias formas diferentes, e Happy Sugar Life já explorou outras formas em outros casos.

Então temos que entender que há sim uma escolha deliberada nessa forma e que ela tem sim a intenção de carregar também significado, suponho. Qual significado?

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Ressaltar a paranoia de Satou, que se vê sempre como um objeto da ação de outros, não como ela própria uma agente da maldade? Reproduzir uma espécie de confessionário? Uma oportunidade para a Satou, que acompanhamos até aqui, de finalmente sentar e nos explicar o que acontece? Um palpite de que o sujeito não importa, e que ela foi vitimada não por um sujeito específico, mas por uma espécie de “everyman”? Alguma metáfora sobre o olhar masculino?

Acho que minha imaginação acaba aqui. Vocês têm alguma outra ideia?

diego gonçalvesDiego

Acho que o maior problema é porque esse recurso em específico. Se era só pra não dar um rosto ao cara, é como o Gato disse, já tivemos outros recursos no anime. Talvez seja só vontade de dar uma variada? Ou talvez porque os outros recursos fariam o cara parecer muito mais monstruoso do que ele deveria parecer no começo?

cat ultharGato de Ulthar

Acho que da maneira que foi mostrada a crescente perversão do pintor em relação a Satou, propiciou uma imersão adicional no que a própria Satou representava, alguém incompleta que passou a se completar quando descobriu a menina.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Talvez a Satou fosse tão vazia na época que não faria sentido assistir do ponto de vista dela, o normal do anime?

Ou talvez tenha a ver com a circunstância japonesa, já mencionada antes. Apesar de tudo, ele não sabia nada de verdade sobre ela, e ela nada sobre ele. Satou se ofereceu para fazer sexo com ele. Quis abrir as pernas, mas nunca passou pela cabeça de nenhum deles abrir o coração. É quase como se apesar de tudo, ninguém tivesse nenhuma conexão com ninguém.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Com base em tudo isso, o que vocês acharam da segunda metade do anime? Tivemos um desenvolvimento bastante bombástico da bomba relógio tayou-shoko-asahi. Contada, diga-se de pessagem, de uma forma muito mais convencional.

De minha parte, confesso que achei a estrutura do episódio um tanto contrastante demais. A primeira metade foi uma masterclass em sutileza em uma série que até então não prezava pela qualidade.

Daí tivemos uma aparição privilegiada justamente do Tayou!

Preciso ser sincero: não curto muito a personagem. De todos os traumatizados de plantão de Happy Sugar Life, acho ele o mais forçado de todos. E a sobreposição dele com a “origem” da Satou só escancarou isso para mim.

buniiito4Fábio “Mexicano”

Ele é uma vítima mais crível, assistimos ele desde o começo. A aversão a mulheres que ele adquiriu é absolutamente compreensível. Talvez ele pareça tão deslocado justamente por ser tão normal? Bom, suponho que o abrigo na pedofilia seja a bizarrice própria dele.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Ah sim, o seu trauma é totalmente compreensível. Já a atração doentia pela Shio me pareceu mais absurda. Se tivéssemos algum contexto sobre o tipo de abuso que recebia da ex-chefe talvez isso fizesse mais sentido (i.e. a predadora era obcecada com “pureza”, mandava-o tocar nela daquele jeito que toca na Shio etc).

diego gonçalvesDiego

Concordo com o Vinicius, o trauma do Tayou é um dos mais tristemente reais do anime, mas a sua atração pela Shio soa como puro recurso do roteiro.

cat ultharGato de Ulthar

O Tayou, além de tudo que vocês já falaram, é o personagem mais dissociado da realidade no que diz respeito à Shio, sendo igualmente um elemento até cômico, se é que algo pode ser cômico, em Happy Sugar Life.

booker finisgeekis 1Vinicius Marino

Bom saber que estamos na mesma página!

E com isso acho que os deixo por aqui, pois logo mais teremos episódio novo. Até a próxima!

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