“Napping Princess”: quando os sonhos passam da conta

Sonhos estão presentes na arte desde quando desenhávamos bisões em paredes de cavernas. É neles onde crianças enfrentam seus medos; sábios recebem profecias; roteiristas se redimem de plot holes.

De tempos em tempos, porém, surge alguma obra que mergulha nos sonhos de forma tão forçuda que parece cobrir nosso rosto com um lenço de clorofórmio. Ou nos conectar contra nossa vontade aos DC minis de Paprika.

Napping Princess, que invoca o “dormir” no próprio título, é uma dessas obras.

Pré-indicado pelo Japão ao Oscar 2018, o filme é dirigido por Kenji Kamiyama, que traz no currículo Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, Higashi no Eden e Moribito.

Seu roteiro nos introduz a Kokone, órfã de mãe que vive na oficina do pai mecânico. De dia, ela é uma adolescente comum às voltas com o vestibular. De noite, sonha ser uma princesa chamada Ancien, nascida de um mundo paralelo governado – literalmente – pelo automóvel.

Ancien possui um talento: é capaz de dar vida a objetos inanimados. O povo se deslumbra com seu talento. Seu pai, o rei, nem tanto. Criador do império automotivo de que é princesa, ele teme que a magia da filha provoque o caos na linha de montagem.

Ancien é presa em uma torre para seu “próprio bem”, uma Rapunzel dos campos STEM. No seu cativeiro, ela descobre uma verdade terrível: o reino foi invadido por colossos que derrotam facilmente as forças de seu pai.

A garota, no entanto, está certa de que seu talento pode virar a balança. Com a ajuda de Peach, um motoqueiro metido a bad boy, ela foge do palácio e arquiteta um plano para salvar o dia.

Kokone nunca deu bola para seus sonhos, até o dia em que seu pai é detido pela polícia, três dias antes das Olimpíadas de Tóquio. Seu crime? Roubar segredos industriais que sua mãe, herdeira da companhia Shijima Motors, desenvolvia antes de morrer.

Não demora para que Kokone perceba que seu sonho é uma alegoria da realidade. Ancien é sua mãe, e o presidente da Shijima Motors, seu avô.  Sua “magia” era um código revolucionário para veículos auto-dirigíveis – que a companhia, agora às vésperas das Olimpíadas, quer recuperar a qualquer custo.

Guiada apenas pelo seu sonho – e acompanhada por um colega de escola – Kokone se envolve em uma corrida entre a realidade e ficção na tentativa de salvar seu pai – e conhecer o passado sobre sua mãe.

Se a sinopse lhe parece confusa, saiba que o problema não é com você. A despeito da fofura “Mamoru Hosoda”, Napping Princess possui um roteiro mais complicado que os circuitos e códigos com que flerta sua protagonista.

Incomum para um filme infanto-juvenil, é uma obra que demanda atenção ininterrupta. Basta um simples cochilo ou pausa para o banheiro para que seu enredo tortuoso fique ainda mais impenetrável.

Felizmente, o que o longa dificulta na trama ele compensa com um visual imaginativo, brilhante e colorido.

Napping Princess contou com um storyboard 100% digital, realizado no software ToonBoom’s Storyboard Pro. Se o resultado supera o velho papel e caneta é difícil dizer. Porém, entre o longa e Kimi no Na Wa (que também se valeu da tecnologia) a técnica parece ter mostrado a que veio.

Heart, a moto-transformer a que Ancien dá vida, é um colírio a fãs de veículos. Os traços de Kokone são expressivos – e limpos o suficiente para transitar sem problemas entre o mundo dos sonhos e a realidade.

Infelizmente, a “magia” de Kokone não parece chegar a todos os departamentos. Entre o fanservice tecnológico, o drama familiar e a fantasia, Kamiyama parece ter mordido mais do que é capaz de mastigar.

Quando os sonhos passam da conta

O irreal é uma ferramenta incrível para dar “corpo” a coisas imateriais: as crueldades de um tirano (O Labirinto do Fauno), o medo de perder os pais (Sete Minutos antes da Meia Noite, Eu Mato Gigantes), nossos próprios sentimentos (Divertidamente) ou demônios interiores (Onde vivem os Monstros).

É um talento que o finado Satoshi Kon explorou ao máximo. Em Perfect Blue, o “outro mundo” eram os fantasmas de uma carreira passada. Em Millenium Actress, o mundo do cinema. Em Paranoia Agent, os frutos lisérgicos de uma histeria coletiva. Em Paprika, os próprios sonhos.

“Páprika”, de Satoshi Kon

Pode bem ser, como dizia Borges, que a escrita seja um “sonho guiado”. Compor histórias que pareçam sonhos, por outro lado, é um talento de poucos.

Sonhos – e pesadelos – são momento em que ruminamos nossas vidas, digerimos nossos traumas, encontramos sentido no que parecia não ter. Em uma história – como na realidade – seu propósito não é tanto nos passar informações novas, quanto mudar nosso olhar sobre o que já conhecemos.

Girls’ Last Tour

Infelizmente, não são poucas as obras que os reduzem a “calços” do roteiro: exposições disfarçadas com fumo e espelhos, cenas coloridas para esconder o trivial.

Histórias “meio-reais” estão com um pé em cada barco. É preciso cuidado para que a fantasia não seja reduzido a gimmick.  Ou, pior, que seu núcleo “verossímil” desapareça em um delírio sem peso.

Tipo esse

Em Napping Princess, esse equilíbrio é rompido. Seu “mundo paralelo” é demasiado parecido com a realidade. Os carros, tablets e softwares do mundo de Kokone harmonizam mal com a pompa aristocrática do país de Ancien.

Uma direção de arte mais ousada – com uma roupagem steampunk ou um verniz de hard sci-fi – daria conta do recado. Sem isto, temos um roteiro que imerge e emerge da fantasia ao seu bel-prazer, como se para esconder que sua história não tem lá muita substância.

A culpa não é da direção, que parece ter comprado uma briga impossível. Por mais emocionante que seja seu conto familiar, rixas corporativas sobre segredos industriais nunca serão os temas mais interessantes do pedaço.

Que esses temas sejam tratados de maneira estabanada não faz a Napping Princess nenhum favor. A comparação entre magia e carros auto-dirigíveis é tacanha. Ver um tablet desempenhando funções de varinha mágica me fez pensar se não assistia a um comercial da Apple. Um conflito envolvendo um código “roubado” provocará risadas em programadores.

Nada disso faz de Napping Princess um filme “ruim”, embora me faça duvidar de sua longevidade. Tramas sobre adolescentes que viajam a outros mundos já se tornaram tão batidas que concursos literários começaram a proibi-las.

Sem outros diferenciais que o redimam, o longa corre o risco de amargar no esquecimento como um de tantos comerciais antecipados das Olimpíadas de 2020. Para uma fábula tão meiga, vinda de um diretor tão competente, seria uma grande pena.

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